Nostalgia 2025 – Windows 98 – A Evolução que Consolidou o Windows na Era da Internet

Pessoal,

Hoje vamos relembrar o Windows 98, e no final vamos instalá-lo no Proxmox VE, como fizemos nos posts anteriores desta série Nostalgia 2025 (veja aqui todos os posts). Já falamos do Windows 98 aqui e aqui!

Se você quer pular direto para a instalação do Windows 98 no VirtualBox ou no Proxmox, sinta-se à vontade. Porém recomendo fortemente que leia todo o post para compreender o contexto histórico e entender que o Windows 98 não foi uma simples “atualização do 95”, mas foi a consolidação do Windows como plataforma dominante na era da internet doméstica, corrigindo as falhas críticas do antecessor e introduzindo recursos que se tornariam fundamentais para a computação dos anos 2000.

Índice:

    1. O Legado do Windows 95 e a Necessidade de Evolução
    2. Desenvolvimento do Windows 98: Corrigindo os Erros do Passado
    3. Principais Inovações Técnicas do Windows 98
    4. FAT32: Quebrando a Barreira dos 2 GB
    5. USB: A Revolução dos Periféricos
    6. Plug and Play, ACPI e o Fim dos Conflitos de Hardware
    7. Internet Explorer 4.0 e a Integração Web
    8. Windows 98 e seus Concorrentes
    9. Lançamento, Market Share e Domínio de Mercado
    10. Versões: Windows 98 Original vs Second Edition
    11. Requisitos e Hardware da Época
    12. O Legado do Windows 98
    13. Instalando o Windows 98 no Virtual Box
    14. Instalando o Windows 98 no Proxmox VE

Para começar, vamos ver como era a caixa do Windows 98! O Windows 98 era vendido como Full Retail Version ou For PCs without Windows, mais cara, para usuários que estavam montando um PC do zero (sem sistema operacional), que não possuiam licença anterior elegível para atualização ou que queriam fazer uma instalação limpa completa sem depender de versão anterior; Upgrade, mais barata, para quem tinha uma licença original de versão anterior do Windows; e OEM, versão que vinha instalada em computadores novos. Isso valia tanto para a primeira edição quanto segunda edição (Second Edition ou SE).

Windows 98 FE Versão Retail Box – para PCs sem Windows

Windows 98 FE – versão de Upgrade

 

Conteúdo da caixa
A versão brasileira!
Windows 98 OEM (primeira edição)
Windows 98 SE (Second Edition) Retail Box (para PC sem Windows)

Windows 98 SE versão Upgrade

Windows 98 SE OEM

E não podemos esquecer do Microsoft Plus for Windows 98!

Quer instalar usando disquete? Também tem! São “apenas” 39 disquetes (o de boot, de 1.44MB e 38 DMF, com 1.68MB cada)!

Essa versão em disquetes saiu apenas na primeira edição. Na versão SE não houve opção de disquetes.

O Legado do Windows 95 e a Necessidade de Evolução

Em agosto de 1995, quando a Microsoft lançou o Windows 95, o mundo da computação doméstica mudou para sempre. A interface revolucionária com menu Iniciar, barra de tarefas e suporte nativo a 32 bits transformou os PCs de ferramentas complicadas em dispositivos acessíveis para o consumidor médio. O Windows 95 foi um sucesso comercial, vendendo cerca de sete milhões de cópias nas primeiras cinco semanas e estabelecendo a Microsoft como força dominante no mercado de sistemas operacionais para PC.

Apesar disso tudo, carregava problemas estruturais sérios que se tornavam cada vez mais evidentes conforme o tempo passava. A arquitetura híbrida 16/32 bits herdada do MS-DOS permitia compatibilidade com software legado mas trazia instabilidade crônica. Os travamentos não eram raros, a temida tela azul da morte (BSOD) aparecia com alguma frequência e o gerenciamento de memória era problemático. Como discutimos no post sobre o Windows NT 4.0, a linha Windows 9x sacrificou a estabilidade em nome da compatibilidade.

Essa escolha de arquitetura híbrida, conforme já discutimos em posts anteriores (aqui e aqui), embora compreensível do ponto de vista comercial, criava uma experiência de usuário frustrante. O modelo de memória híbrido permitia que um código de 16 bits (Windows 3.x e DOS) rodasse lado a lado com um código de 32 bits, mas ao custo de proteção de memória inadequada. Uma aplicação mal-comportada podia facilmente corromper a memória de outra ou do próprio sistema operacional.

O problema era ainda mais profundo do que aparentava na superfície. O Windows 95 implementava o que ficou conhecido como Win16Lock — um mutex global que forçava a serialização de chamadas ao subsistema de 16 bits. Quando uma aplicação legada executava código de 16 bits, ela literalmente bloqueava todas as outras aplicações de acessarem funções críticas do sistema. Isso significava que a “multitarefa preemptiva” anunciada pela Microsoft era, na prática, uma multitarefa cooperativa disfarçada. Um programa DOS mal escrito rodando em uma janela podia congelar todo o ambiente Windows.

A multitarefa cooperativa para aplicações 16 bits significava que um programa travado podia congelar todo o sistema. O Virtual Machine Manager (VMM), responsável por coordenar essa zona essa complexidade, fazia o que podia, mas não havia milagres possíveis dentro das limitações impostas. O VMM tentava criar máquinas virtuais isoladas para cada aplicação DOS, mas a realidade era que essas “máquinas virtuais” compartilhavam recursos críticos do sistema de forma perigosa. Quando uma VM DOS travava, frequentemente levava outras junto, ou pior, corrompia estruturas de dados do kernel que eram compartilhadas entre o código de 16 e 32 bits através das camadas de thunking.

Além desses problemas de estabilidade, o Windows 95 tinha outras limitações técnicas que eram cada vez mais evidentes com a evolução do hardware. O sistema de arquivos FAT16 (herdado do DOS) tinha um limite técnico de 2 GB por partição quando usando clusters de tamanho razoável (32 KB). Para contornar isso, poderia ser utilizado clusters maiores de 64 KB, chegando a até 4 GB, mas desperdiçava espaço – um arquivo de 1 KB ocuparia 64 KB no disco. Esse desperdício, conhecido tecnicamente como slack space, era um problema de eficiência que se agravava exponencialmente conforme os discos cresciam. Em termos práticos, um disco de 2 GB formatado em FAT16 com clusters de 32 KB desperdiçava, em média, 16 KB por arquivo — metade do tamanho do cluster. Para usuários com centenas ou milhares de arquivos pequenos (arquivos de configuração, documentos de texto, imagens de ícones), o desperdício acumulado podia chegar a centenas de megabytes.

Em 1995, quando discos rígidos de 540 MB a 1 GB eram comuns, isso era tolerável. Mas já no final da década, quando discos de 4 GB, 6 GB e até 10 GB tornavam-se acessíveis, a limitação do FAT16 obrigava usuários a dividirem seus discos em múltiplas partições (C:, D:, E:, F:…) e isso criava um pesadelo de gerenciamento. E sempre podia piorar: muitos programas da época eram configurad0s para instalar no C:, criando situações absurdas onde você tinha muito espaço livre nas partições D: ou E:, mas não conseguia instalar um programa porque C: estava cheia!

O suporte a USB (Universal Serial Bus), o novo padrão introduzido em 1996 que prometia revolucionar a conectividade de periféricos, era praticamente inexistente no Windows 95 RTM. O OSR2 (OEM Service Release 2), lançado em agosto de 1996, adicionou suporte básico a USB, mas era muito inicial e bugado e poucos fabricantes se arriscavam a produzir dispositivos USB. A especificação USB 1.0 tinha problemas próprios (ambiguidades de sincronização, problemas com hubs e falhas de handshake) que foram corrigidos apenas na revisão USB 1.1 de 1998, mas mesmo o suporte “melhorado” do OSR2 era tão instável que conectar ou desconectar um dispositivo USB frequentemente resultava em travamento do sistema. Era o clássico problema do ovo e da galinha: fabricantes não investiam em dispositivos USB porque o suporte do sistema operacional era ruim, e a Microsoft não priorizava melhorar o suporte porque não havia dispositivos no mercado.

O suporte a AGP (Accelerated Graphics Port), o novo barramento dedicado para placas de vídeo 3D lançado pela Intel em 1997, era igualmente limitado. O AGP não era apenas um slot mais rápido, mas sim uma mudança de arquitetura que permitia que a placa de vídeo acessasse diretamente a memória RAM do sistema (através do que ficou conhecido como AGP texturing ou DIME – Direct Memory Execute). Isso era fundamental para jogos 3D que precisavam de texturas maiores do que a memória da placa de vídeo podia armazenar. O Windows 95, mesmo com OSR2, tinha suporte rudimentar a AGP e não implementava adequadamente as funcionalidades avançadas do barramento.

E, talvez, o mais crítico para o período entre 1997 e 1998: o Windows 95 simplesmente não estava preparado para a explosão da internet doméstica que estava acontecendo.

A Microsoft percebeu alguns desses problemas e lançou o OSR2 em agosto de 1996, uma atualização significativa que introduzia FAT32 (quebrando a barreira dos 2 GB), suporte básico a USB, melhorias de estabilidade e o Internet Explorer 3.0 integrado. Mas a Microsoft tomou a controversa decisão comercial de não vender o OSR2 nas lojas. Apenas fabricantes de computadores (OEMs) podiam distribuí-lo pré-instalado em máquinas novas. Assim, usuários que tinham comprado o Windows 95 no varejo ficaram presos à versão original, sem acesso oficial a essas melhorias fundamentais. Tecnicamente, era possível obter o OSR2 através de canais não-oficiais, mas para o usuário padrão essas melhorias eram inacessíveis. Essa decisão criou o que podemos chamar de “fragmentação técnica do mercado“, uma situação onde dois usuários rodando Windows 95 tinham experiências radicalmente diferentes dependendo de como obtiveram o sistema: o usuário com OSR2 podia ter um disco de 8 GB em uma única partição FAT32, enquanto o usuário com a versão retail original estava preso a limitado a múltiplas partições de 2 GB em FAT16. Na prática existiam duas versões muito diferentes do Windows 95 circulando, com capacidades técnicas radicalmente distintas.

Enquanto isso, a internet estava explodindo em uma velocidade que pegou até mesmo a própria Microsoft de surpresa! Em 1995, apenas 16 milhões de pessoas no mundo usavam internet. Em 1998, esse número havia saltado para 147 milhões. Esse crescimento de quase 900% em três anos representava a mudança no papel do computador pessoal: de uma ferramenta standalone de produtividade para um terminal de comunicação global. Provedores de internet dial-up como AOL, CompuServe e Prodigy nos EUA, e UOL, ZipNet e iG no Brasil tornavam-se cada vez mais populares.

AOL em 1997
CD do AOL que a gente recebia todo santo dia pelos Correios!
Site do UOL em 1996!

A largura de banda doméstica evoluía rapidamente. Os modems de 14.4 kbps de 1995 davam lugar aos 28.8 kbps, depois 33.6 kbps e finalmente os 56 kbps em 1998, tornando a web significativamente mais utilizável. (A título de lembrança pessoal, a minha primeira placa de fax-modem foi uma de 56 kbps comprada no Carrefour do BH Shopping em 1999!) A transição de 14.4 para 56 kbps representava quase 4x mais velocidade, transformando a experiência de navegação de “insuportavelmente lenta” para “tolerável” (como essa era a única realidade que a gente conhecia, era considerado com “normal”, mas as velocidades de antigamente comparadas com as de hoje deixariam a turma nutella em pânico!). Uma página web típica de 1998, com 50-100 KB de HTML, imagens e scripts, que levava quase um minuto para carregar em 14.4 kbps, agora carregava em 15-20 segundos em 56 kbps.

Páginas web estáticas de puro HTML davam lugar a sites dinâmicos com JavaScript, Java applets, Flash e até streaming primitivo de mídia. A web estava deixando de ser um repositório de documentos acadêmicos para se tornar uma plataforma de aplicações, comércio eletrônico e entretenimento.

A famosa placa fax-modem 56k v.92!

No centro dessa explosão estava a feroz guerra dos navegadores (ainda vou fazer um post só sobre isso!). A Netscape Communications, fundada por Marc Andreessen (co-criador do Mosaic, o primeiro navegador gráfico popular), havia lançado o Netscape Navigator em 1994 e dominava completamente o mercado com aproximadamente 80% de participação em 1996. O Navigator era tecnicamente superior, suportava os padrões web emergentes, e havia se tornado sinônimo de “navegar na internet” para milhões de usuários. O Navigator 3.0, lançado em 1996, implementava JavaScript (criado pela própria Netscape), frames, plug-ins e tinha uma engine de renderização significativamente mais rápida que a concorrência.

http://home.mcom.com/home/about-the-internet.html

A Microsoft estava focada em sistemas operacionais e aplicações desktop e subestimou a importância estratégica da web. O Internet Explorer 1.0, lançado em agosto de 1995 como um add-on gratuito para o Windows 95, era medíocre (era basicamente uma versão licenciada e levemente modificada do Spyglass Mosaic). O IE 2.0, lançado em novembro de 1995, melhorou mas ainda estava muito atrás. Foi apenas com o IE 3.0, lançado em agosto de 1996, que a Microsoft finalmente ofereceu um navegador minimamente competitivo, suportando CSS, JavaScript, ActiveX e frames.

Só que ser “competitivo tecnicamente” não era mais suficiente. A Netscape tinha vantagem do primeiro movimento, reconhecimento de marca e uma base de usuários leais. A Netscape também tinha uma estratégia de monetização clara: vender versões corporativas do Navigator e do Netscape Server para empresas. A Microsoft precisava de uma estratégia mais agressiva, e essa estratégia seria a integração profunda do navegador ao sistema operacional – uma decisão que teria consequências técnicas, comerciais e legais profundas. Vamos falar disso mais pra frente!

O hardware de PCs também evoluía a uma velocidade vertiginosa entre 1995 e 1998. Processadores saltaram do Pentium original de 75-200 MHz para o Pentium MMX de 166-233 MHz (introduzindo instruções SIMD para multimídia), depois para o Pentium II de 233-450 MHz com arquitetura P6 aprimorada e cache L2 integrado em cartucho. A transição do Pentium para o Pentium MMX (falamos disso aqui) não foi apenas um aumento de clock . As instruções MMX (MultiMedia eXtensions) adicionavam 57 novas instruções SIMD (Single Instruction, Multiple Data) que permitiam processar múltiplos dados simultaneamente, acelerando dramaticamente operações de vídeo, áudio e gráficos. Já o Pentium II representava uma mudança física radical: abandonava o tradicional Socket 7 em favor do Slot 1, um cartucho que integrava o processador com cache L2 de 512 KB rodando a metade da velocidade do processador (contra o cache externo do Pentium que rodava na velocidade do barramento, muito mais lento).

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Olá, eu sou o Pentium II!

A AMD surgia como competidor sério com o K6, depois K6-2 com instruções 3DNow!, oferecendo performance competitiva a preços significativamente menores. O K6-2 era particularmente interessante porque mantinha compatibilidade com o Socket 7, permitindo que usuários fizessem upgrade sem trocar a placa-mãe, enquanto a Intel forçava a migração para o caro Slot 1.

Memória RAM despencava de preço – 8 MB custavam cerca de $240 em 1995; em 1998, 64 MB custavam menos de $100. Configurações que eram impossíveis para usuários comuns em 1995 tornavam-se padrão em máquinas de médio porte.

As placas de vídeo também passavam por uma revolução. Aceleradores 2D simples davam lugar a poderosas GPUs 3D como a 3dfx Voodoo, que literalmente criou o mercado de jogos 3D em PCs. A Voodoo original, lançada em 1996, não era tecnicamente uma placa de vídeo completa — era um acelerador 3D que funcionava em conjunto com uma placa 2D existente através de um cabo pass-through. Você conectava seu monitor na Voodoo, e a Voodoo na sua placa 2D. Quando um jogo 3D iniciava, a Voodoo assumia o controle; quando você voltava ao Windows, a placa 2D retomava. Era uma solução inelegante mas efetiva que mudou os jogos para sempre.

A ATI com a linha Rage e a NVIDIA (então uma startup) com a RIVA 128 competiam ferozmente. O barramento AGP, substituindo o PCI genérico, dobrava a largura de banda disponível para gráficos (266 MB/s vs 133 MB/s do PCI). Jogos como Quake (1996), Tomb Raider (1996) e especialmente Quake II (1997) demonstravam o potencial da aceleração 3D, criando demanda insaciável por hardware mais poderoso.

O Windows 95, projetado entre 1993 e 1994 para o hardware daquela época, simplesmente não aproveitava plenamente essas inovações. Drivers de hardware eram frequentemente instáveis e escritos na correria por fabricantes que ainda estavam aprendendo o modelo VxD (Virtual Device Driver) do Windows 95. Esses VxDs eram drivers de modo kernel que rodavam em Ring 0 com privilégios totais sobre o sistema — um driver mal escrito tinha poder absoluto para corromper qualquer parte da memória ou travar o sistema inteiro. Não havia proteção, não havia sandboxing, não havia recovery. Um driver de placa de som bugado podia causar BSODs aleatórias que pareciam não ter relação alguma com áudio.

O suporte a dispositivos novos exigia atualizações constantes baixadas de BBSs ou sites FTP. Recursos como AGP e USB eram mal integrados quando existiam.

Após três anos no mercado, esses problemas do Windows 95 eram impossíveis de ignorar. O registro do Windows, o banco de dados hierárquico que armazenava configurações do sistema e aplicações, crescia descontroladamente com o tempo. Cada programa instalado adicionava entradas; muitos programas desinstalados deixavam lixo para trás. O registro tornava-se fragmentado, lento, e ocasionalmente corrompido, exigindo ferramentas de terceiros para limpeza e manutenção. O registro do Windows 95 era armazenado em dois arquivos: SYSTEM.DAT e USER.DAT, com um limite teórico de 16 MB cada. Na prática, registros acima de 4-5 MB começavam a apresentar problemas de performance e corrupção. O arquivo de swap (PAGEFILE.SYS), usado para memória virtual, não era gerenciado eficientemente, fragmentando-se e degradando performance.

Revistas de tecnologia da época – PC Magazine, Byte, InfoWorld – estavam cheias de artigos com títulos como “Como Manter Seu Windows 95 Estável”, “10 Dicas Para Evitar a Tela Azul”, “Quando Reinstalar É a Única Solução”. As recomendações típicas incluíam reinstalar o sistema a cada três meses para começar com registro limpo, desfragmentar o disco religiosamente, limpar arquivos temporários manualmente, e evitar instalar “muitos” programas. Para usuários técnicos, isso era irritante mas gerenciável. Para usuários comuns, era incompreensível e frustrante.

Enquanto isso, a Microsoft mantinha duas famílias completamente separadas de sistemas operacionais, criando confusão significativa no mercado. A família “9x” (Windows 95, e o futuro 98 e ME) era voltada para consumidores domésticos, baseada em MS-DOS com kernel híbrido 16/32 bits, priorizando compatibilidade e suporte a jogos. Era compatível, mas pouco estável. Já a família “NT” (Windows NT 3.51 e NT 4.0) era voltada para ambientes corporativos e estações de trabalho profissionais, com kernel 32 bits puro, multitarefa preemptiva verdadeira, proteção de memória robusta e segurança baseada em ACLs. Era estável, mas pouco compatível.

Essa divisão criava situações absurdas. Usuários domésticos viam os reviews do Windows NT 4.0 elogiando sua estabilidade e ficavam frustrados por não poderem usá-lo – jogos populares não funcionavam, drivers de hardware consumer eram escassos, e os requisitos de hardware (mínimo real de 32 MB de RAM quando 16 MB eram comuns em máquinas domésticas) eram proibitivos. Usuários corporativos olhavam invejosos para a facilidade de uso e plug-and-play do Windows 95, mas não podiam abrir mão da estabilidade do NT.

A pergunta óbvia era: por que não unificar as duas linhas? A resposta técnica era complexa e envolvia trade-offs fundamentais. O kernel do NT tinha requisitos de hardware maiores, implementava proteção de memória completa que impedia acesso direto ao hardware (comum em jogos) e não suportava o vasto ecossistema de drivers VxD do Windows 95. Convergir as linhas exigiria anos de trabalho intensivo, algo que só se concretizaria com o Windows XP em outubro de 2001 – ainda três anos no futuro.

O Windows 98, portanto, representava uma solução de compromisso necessária. Não seria a unificação das linhas, mas uma evolução focada em manter a arquitetura fundamental do Windows 95 (garantindo compatibilidade absoluta), melhorar a estabilidade através de milhares de correções de bugs, modernizar o suporte a hardware novo (USB funcional, AGP nativo, ACPI para gerenciamento de energia), abraçar completamente a internet através de integração profunda do navegador e melhorar a experiência de usuário com incontáveis alterações pequenas mas significativas.

O Windows 98 seria a ponte entre o Windows 95 de 1995 e a eventual unificação das linhas com o Windows XP de 2001. Para a Microsoft, era urgente. A concorrência, embora fragmentada, estava crescendo em ambição. O BeOS prometia ser o futuro multimídia. Linux ganhava tração em servidores e começava a sonhar com o desktop. Apple preparava o retorno de Steve Jobs e a transformação que resultaria no Mac OS X. Internamente, a Microsoft enfrentava o maior desafio legal de sua história – o processo antitruste que questionava práticas monopolistas.

O Windows 98 precisava acontecer. E precisa ser rápido e precisava ser bom.

Desenvolvimento do Windows 98: Corrigindo os Erros e Abraçando a Web

O desenvolvimento do Windows 98, codinome “Memphis”, começou em meados de 1996, logo após o lançamento do OSR2. A equipe de desenvolvimento, liderada por Jim Allchin (o mesmo que liderou o desenvolvimento do Windows NT 4.0), tinha objetivos claros mas desafiadores:

1. Estabilidade acima de tudo. O Windows 95 tinha reputação de instável. Memphis precisava ser visivelmente mais confiável.

2. Internet em primeiro lugar. A web precisava estar integrada nativamente ao sistema operacional, não como um add-on.

3. Hardware moderno. Suporte nativo e robusto a USB, AGP, DVD-ROM, placas de rede Fast Ethernet, e outros padrões emergentes.

4. Manter compatibilidade total. Todos os programas e jogos do Windows 95 precisavam rodar sem modificações.

5. Performance melhorada. Especialmente em máquinas com pouca RAM e processadores modestos.

A escolha de Jim Allchin para liderar o projeto Memphis era estratégica e simbólica. Allchin tinha credenciais técnicas impecáveis, vindo do mundo acadêmico (PhD em Ciência da Computação pela Georgia Tech) e tendo liderado o desenvolvimento do Windows NT 4.0, que era reconhecido pela sua estabilidade e arquitetura robusta. A Microsoft estava sinalizando que levava a sério a missão de trazer confiabilidade para a linha consumer. Porém, Allchin enfrentava um desafio muito diferente do NT: enquanto no NT ele tinha a liberdade de construir um kernel moderno do zero, no Memphis ele precisava operar dentro das severas restrições de compatibilidade impostas pela base instalada de milhões de usuários do Windows 95.

O primeiro desafio era a estabilidade. A arquitetura fundamental do Windows 98 permanecia a mesma do Windows 95 – um núcleo híbrido 16/32 bits rodando sobre MS-DOS 7.1. Não havia como mudar isso radicalmente sem quebrar compatibilidade, que era justamente o trunfo da linha 9x contra o Windows NT. O MS-DOS 7.1 que servia de base para o Windows 98 era uma versão evoluída do MS-DOS 7.0 do Windows 95, com melhorias no suporte a FAT32 e drivers de dispositivo, mas ainda mantinha a mesma estrutura fundamental: IO.SYS, MSDOS.SYS, e COMMAND.COM carregavam primeiro, estabelecendo o ambiente de 16 bits, e só então o WIN.COM iniciava o carregamento do kernel híbrido do Windows. Então a equipe focou em corrigir milhares de bugs conhecidos, melhorar drivers críticos (especialmente gráficos e de rede), implementar proteção melhor contra falhas de aplicações 16 bits, e otimizar o gerenciamento de memória.

Uma das melhorias mais significativas foi no Virtual Machine Manager (VMM). No Windows 95, quando uma aplicação DOS ou Windows 3.x de 16 bits travava, frequentemente levava outras aplicações junto ou até mesmo o sistema inteiro. O Windows 98 melhorou significativamente o isolamento dessas máquinas virtuais. Agora, quando um programa 16 bits travava, o VMM conseguia detectar e terminar apenas aquela máquina virtual específica, mantendo o resto do sistema funcionando. A técnica implementada envolvia melhor monitoramento de exceções de proteção geral (General Protection Faults – GPFs) e a capacidade de “desmontar” uma VM DOS sem corromper as estruturas de dados compartilhadas do kernel. No Windows 95, quando uma VM travava, frequentemente deixava mutexes (Mutex, de Mutual Exclusion) travados – mecanismos de sincronização que funcionam como “travas digitais” para controlar o acesso a recursos compartilhados (como arquivos ou impressoras). Quando um programa travava enquanto segurava uma dessas travas, outros programas ficavam eternamente esperando para acessar aquele recurso, causando travamentos em cascata. Além disso, o travamento podia corromper as estruturas de heap (Heap Structures) – os “registros de controle” que o sistema usa para gerenciar a memória, indicando quais áreas estão ocupadas ou livres. Com esses registros corrompidos, o Windows perdia o controle sobre a alocação de memória, causando erros imprevisíveis em todo o sistema. O Windows 98 implementou mecanismos de limpeza mais eficientes que liberavam esses recursos automaticamente quando uma VM era terminada forçadamente, detectando mutexes “órfãos” e reconstruindo as estruturas de heap corrompidas. Não era perfeito – ainda era possível travar o sistema inteiro com a temida tela azul da morte (BSOD) – mas era consideravelmente melhor que no 95 (veja aqui mais sobre BSOD do Windows 9.x)

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BSOD dos Windows 95 e 98 eram praticamente idênticas!

Outra melhoria crítica foi no gerenciamento dos System Resources – os infames heaps de 64 KB para GDI e User. No Windows 95, esses heaps de 16 bits eram um gargalo constante. Cada janela, cada ícone, cada fonte carregada consumia bytes preciosos desses heaps limitados. O Windows 98 não podia eliminar completamente essa limitação (isso exigiria reescrever todo o subsistema gráfico), mas implementou otimizações significativas: melhor garbage collection para liberar recursos de janelas fechadas, cache mais eficiente de objetos GDI reutilizáveis, e alertas proativos quando os recursos estavam se esgotando (o famoso aviso “The system is dangerously low in resources“).

O segundo grande foco era a integração com a internet. A Microsoft estava travando a famosa “guerra dos navegadores” com a Netscape. Em 1996, o Netscape Navigator tinha mais de 80% do mercado de navegadores. A Microsoft, percebendo tardiamente a importância estratégica da web, havia lançado o Internet Explorer 1.0 em agosto de 1995 como um add-on medíocre. O IE 2.0 melhorou, mas ainda estava muito atrás. O IE 3.0, lançado em agosto de 1996, finalmente era competitivo tecnicamente.

Mas não bastava ter um navegador bom. A estratégia da Microsoft para o Memphis era integrar o Internet Explorer profundamente no sistema operacional. Não seria mais um programa separado, seria parte do Windows. Essa integração foi implementada através de uma refatoração fundamental do shell do Windows. O Windows Explorer (EXPLORER.EXE) foi reconstruído usando componentes COM (Component Object Model) compartilhados com o Internet Explorer. O componente central era o SHDOCVW.DLL (Shell Document Object and Control Library), que implementava a engine de navegação tanto para o sistema de arquivos quanto para páginas HTML. Isso significava que o mesmo código que renderizava uma pasta de arquivos também podia renderizar uma página web.

O Active Desktop, introduzido com o IE 4.0, permitia que páginas HTML rodassem como papel de parede. Tecnicamente, o Active Desktop transformava o desktop em um container ActiveX que hospedava uma instância do Internet Explorer em modo de tela cheia. Você podia adicionar “componentes de desktop” – essencialmente mini-páginas HTML que rodavam continuamente, atualizando informações como cotações de ações, previsão do tempo, ou feeds de notícias. Era uma ideia futurista para 1998, mas na prática consumia recursos significativos em máquinas com pouca RAM, e a maioria dos usuários acabava desabilitando o recurso.

A barra de endereços do Windows Explorer podia agora navegar URLs da mesma forma que navegava pastas locais. Favoritos do navegador eram integrados aos favoritos do sistema. O histórico de navegação web e o histórico de arquivos acessados eram unificados em um único banco de dados. A linha entre navegação local e navegação web deveria desaparecer.

Essa decisão seria extremamente controversa e levaria a processos antitruste do governo americano contra a Microsoft, argumentando que integrar IE ao Windows era prática monopolista anticompetitiva. O caso “United States v. Microsoft Corp.” argumentava que a Microsoft estava usando seu monopólio em sistemas operacionais (mais de 90% de market share) para forçar sua entrada no mercado de navegadores, prejudicando a Netscape. O Departamento de Justiça apontava para práticas como acordos exclusivos com OEMs que proibiam a pré-instalação de navegadores concorrentes, e a impossibilidade técnica de remover o IE sem quebrar o Windows. Mas tecnicamente, a integração era profunda e real – não era possível simplesmente “desinstalar o IE” do Windows 98 sem quebrar funcionalidades fundamentais do sistema operacional. Remover o IEXPLORE.EXE era trivial, mas remover o SHDOCVW.DLL, MSHTML.DLL, e outros componentes compartilhados quebrava o Windows Explorer, o Help system, e dezenas de outras funcionalidades.

O terceiro objetivo era suporte a hardware moderno. Os anos 1997 e 1998 viram a explosão de novos padrões de hardware:

USB (Universal Serial Bus) – Lançado em 1996, o USB prometia resolver o pesadelo que era conectar periféricos em PCs. Acabou com a bagunça de portas seriais, paralelas, PS/2, joystick, cada uma com seus conectores, IRQs e configurações específicas. Antes do USB, adicionar um periférico frequentemente significava abrir o gabinete, instalar uma placa de expansão, configurar jumpers para definir IRQ e endereço de I/O, rezar para não ter conflito com outros dispositivos, e reiniciar múltiplas vezes até funcionar. USB era plug-and-play verdadeiro: conecte e funciona. Mas o Windows 95 tinha suporte péssimo a USB, adicionado apenas no OSR2.1 e mesmo assim bugado e limitado. O Windows 98 precisava fazer USB funcionar de verdade.

O Windows 98 implementou suporte completo à especificação USB 1.1, incluindo drivers de classe para categorias comuns de dispositivos: HID (Human Interface Devices) para teclados, mouses e joysticks; Mass Storage para discos externos e pen drives (que ainda não existiam comercialmente, mas o suporte já estava lá); Printers; Audio; e Communications (modems USB). Isso significava que um mouse USB funcionava imediatamente ao ser conectado, sem precisar de driver específico do fabricante – o driver HID genérico do Windows cuidava de tudo. A Microsoft também trabalhou com fabricantes de chipsets (Intel, VIA, ALi) para garantir que os controladores USB das placas-mãe tivessem drivers estáveis e otimizados.

AGP (Accelerated Graphics Port) – Lançado pela Intel em 1997, AGP era um barramento dedicado para placas de vídeo 3D, oferecendo largura de banda muito maior que PCI (266 MB/s contra 133 MB/s). Mais importante que a largura de banda era o AGP texturing (também chamado DIME – Direct Memory Execute), que permitia que a GPU acessasse diretamente a memória RAM do sistema para armazenar texturas. Isso era revolucionário: jogos 3D não estavam mais limitados à quantidade de memória na placa de vídeo. Uma placa com 4 MB de VRAM podia usar dezenas ou centenas de megabytes da RAM do sistema para texturas adicionais. Com jogos 3D explodindo em popularidade (Quake, Tomb Raider, Half-Life), placas AGP eram essenciais. Windows 98 precisava suportar AGP nativamente.

O suporte a AGP no Windows 98 incluía drivers para o chipset AGP (GART – Graphics Address Remapping Table) e APIs para que drivers de vídeo pudessem utilizar AGP texturing. Isso foi implementado em cooperação com fabricantes de GPUs (3dfx, NVIDIA, ATI) que estavam lançando as primeiras placas AGP verdadeiras.

DVD-ROM – O formato DVD começou a aparecer em 1997, oferecendo 4.7 GB contra 650 MB de um CD-ROM. Filmes em DVD estavam chegando ao mercado doméstico. O DVD não era apenas um CD maior, mas um formato completamente diferente com sistema de arquivos UDF (Universal Disk Format), proteção contra cópia CSS (Content Scramble System), e vídeo comprimido em MPEG-2. O Windows 98 precisava de drivers nativos para unidades DVD e suporte a decodificação MPEG-2. A decodificação MPEG-2 era computacionalmente intensiva demais para CPUs da época fazerem em software em tempo real, assim a maioria das placas de vídeo DVD vinham com chips dedicados para decodificação. O Windows 98 incluía o DirectShow (evolução do Video for Windows) que fornecia a infraestrutura para que esses decodificadores de hardware funcionassem.

ACPI (Advanced Configuration and Power Interface) – Padrão lançado em 1996 para gerenciamento de energia, especialmente importante para notebooks. ACPI permitia que o sistema operacional controlasse totalmente o estado de energia do hardware, habilitando recursos como hibernação verdadeira, gerenciamento térmico e economia de energia mais eficiente. ACPI substituía o antigo APM (Advanced Power Management), onde o BIOS controlava o gerenciamento de energia e o sistema operacional apenas fazia requisições. Com ACPI, o Windows tinha controle direto: podia desligar componentes individuais (disco rígido, monitor, placa de rede), ajustar voltagem e frequência do processador dinamicamente (precursor do SpeedStep/Cool’n’Quiet), e implementar estados de repouso mais sofisticados (S1, S3, S4). A hibernação no Windows 98 (quando suportada pelo hardware ACPI) funcionava salvando todo o conteúdo da RAM para o arquivo HIBERFIL.SYS no disco e desligando completamente a máquina – ao ligar novamente, o sistema restaurava o estado exato de onde parou.

IEEE 1394 (FireWire) – Desenvolvido pela Apple mas padronizado como IEEE 1394, FireWire oferecia 400 Mbps de largura de banda, sendo ideal para câmeras de vídeo digital e discos externos de alta velocidade. FireWire tinha uma vantagem técnica sobre USB: suportava transferência de dados isócrona (com garantia de largura de banda constante), essencial para streaming de vídeo em tempo real. O USB 1.1, com seus 12 Mbps, não tinha largura de banda suficiente para vídeo DV (que requeria 25 Mbps). ) Windows 98 adicionou suporte básico a FireWire, incluindo drivers para controladores OHCI (Open Host Controller Interface) e suporte a câmeras DV através do DirectShow.

A Microsoft trabalhou intimamente com fabricantes de hardware para garantir que drivers funcionassem bem no Windows 98. O programa de certificação Windows Hardware Quality Labs (WHQL) foi expandido significativamente. O processo de certificação WHQL envolvia testes rigorosos de estabilidade, compatibilidade e performance. Drivers precisavam passar por uma extensa bateria de testes automatizados que simulavam condições de stress (instalação/desinstalação repetida, operação contínua por horas, cenários de erro como desconexão abrupta de dispositivos). Drivers certificados recebiam o selo “Designed for Windows 98“, dando confiança aos consumidores. Mais importante: drivers certificados eram assinados digitalmente pela Microsoft, e o Windows 98 alertava usuários quando tentavam instalar drivers não-assinados – uma medida de segurança e estabilidade que se tornaria padrão em versões futuras do Windows.

Principais Inovações Técnicas do Windows 98

Vamos analisar algumas das mudanças técnicas mais significativas que o Windows 98 trouxe. Algumas eram visíveis para usuários finais, outras trabalhavam nos bastidores, por debaixo dos panos, melhorando estabilidade e performance.

Windows Driver Model (WDM)

Uma das mudanças arquiteturais mais importantes do Windows 98 foi a introdução do Windows Driver Model (WDM). Até então, drivers para Windows 9x (VxD – Virtual Device Drivers) e drivers para Windows NT (kernel-mode drivers) eram completamente diferentes e incompatíveis. Um fabricante que quisesse suportar ambas as plataformas precisava desenvolver e manter dois drivers completamente separados.

Os VxDs do Windows 95/98 eram drivers de modo real que rodavam em Ring 0 (nível de privilégio máximo do processador), escritos em Assembly ou C, e tinham acesso irrestrito a todo o hardware e memória do sistema. Já os drivers do Windows NT seguiam um modelo completamente diferente, baseado em camadas (miniport/class driver), com APIs distintas e mecanismos de proteção muito mais rigorosos. Para um fabricante de hardware, isso significava duplicar todo o esforço de desenvolvimento, teste e manutenção.

O WDM era a tentativa de unificar isso, criando um modelo de driver que funcionaria tanto no Windows 98 quanto no Windows 2000 (então em desenvolvimento). Drivers WDM eram escritos seguindo especificações comuns, permitindo que fabricantes desenvolvessem um único driver que rodaria em ambas as plataformas com modificações mínimas.

Na prática, o WDM no Windows 98 era mais uma camada de compatibilidade rodando sobre a infraestrutura VxD existente do que uma reimplementação completa do modelo de drivers do NT. O Windows 98 implementava o WDM através de um tradutor (NTKERN.VXD) que convertia chamadas WDM para o modelo VxD nativo. Isso significava que drivers WDM no Windows 98 tinham limitações que não existiam no Windows 2000 – por exemplo, não tinham acesso completo aos mecanismos de Plug and Play avançados ou ao gerenciamento de energia do NT. Mas a iniciativa foi importante porque começou a convergir as duas linhas de Windows (9x e NT) em direção à arquitetura unificada que eventualmente se tornaria o Windows XP.

Categorias de drivers que mais se beneficiaram do WDM foram dispositivos USB, IEEE 1394, streaming de áudio/vídeo (através do DirectShow), e dispositivos de imagem (scanners, câmeras digitais através do Windows Image Acquisition – WIA). Esses eram justamente os dispositivos novos da época, então fabricantes começaram adotando WDM desde o início ao invés de precisar portar de VxD. Para fabricantes, isso era uma vantagem estratégica enorme, pois desenvolver um driver WDM garantia suporte tanto para o mercado consumer (Windows 98) quanto para o mercado corporativo (Windows 2000), otimizando o retorno sobre o investimento em desenvolvimento.

Proteção de Arquivos do Sistema

O Windows 95 tinha um problema crônico: instaladores mal escritos frequentemente sobrescreviam DLLs críticas do sistema com versões mais antigas ou incompatíveis. Isso causava instabilidade sistêmica difícil de diagnosticar – o Windows continuava bootando, mas comportamentos estranhos apareciam em aplicações aleatórias. Esse problema ficou conhecido como “DLL Hell” – uma situação onde múltiplas aplicações dependiam de versões diferentes da mesma DLL, e a última aplicação instalada “ganhava”, potencialmente quebrando todas as outras.

O Windows 98 introduziu o System File Checker (SFC), um mecanismo de proteção que:
  • Mantinha uma lista de todos os arquivos críticos do sistema e suas versões corretas. Essa lista era armazenada em um banco de dados protegido (SFCFILES.DAT) que continha checksums CRC32 de cada arquivo crítico do Windows.

  • Monitorava modificações nesses arquivos rodando rodava em background e era notificado sempre que um arquivo protegido era modificado.

  • Se detectasse que um instalador tentou substituir uma DLL do sistema por versão mais antiga, bloqueava a substituição ou revertia para a versão correta. O mecanismo comparava o número de versão do arquivo sendo instalado com o arquivo existente. Se a versão nova fosse mais antiga, o SFC restaurava automaticamente a versão correta de um cache protegido (pasta SYSBCKUP).

  • Permitia que usuários rodassem manualmente sfc.exe para verificar integridade de todos os arquivos do sistema. Executar sfc /scannow no prompt de comando verificava todos os arquivos protegidos e restaurava qualquer um que estivesse corrompido ou modificado.

Não era perfeito, já que instaladores ainda podiam causar problemas, especialmente se rodassem em modo DOS ou Safe Mode onde o SFC não estava ativo, mas ainda assim reduziu significativamente uma categoria inteira de problemas de estabilidade. O conceito do SFC foi tão bem-sucedido que foi expandido e aprimorado em todas as versões posteriores do Windows e até hoje é uma ferramenta essencial de diagnóstico e reparo.

Windows Update

O Windows 98 foi o primeiro Windows para o varejo a incluir Windows Update, um mecanismo automático para baixar e instalar atualizações de segurança, correções de bugs e drivers atualizados diretamente da Microsoft via internet.

Antes do Windows Update, atualizar o Windows significava procurar e baixar manualmente arquivos individuais de correção do site da Microsoft (geralmente com nomes “super esclarecedores” como “Q123456.EXE”), ou esperar que alguma revista de informática incluísse um CD com as atualizações. Esses patches eram distribuídos como arquivos executáveis auto-extraíveis que modificavam arquivos do sistema, e não havia um mecanismo centralizado para rastrear o que estava instalado. A maioria dos usuários simplesmente nunca atualizava o sistema, rodando versões cada vez mais desatualizadas e vulneráveis.

Windows Update no Windows 98 era relativamente simples: uma página web hospedada pela Microsoft (windowsupdate.microsoft.com) que usava controles ActiveX para detectar que versões de drivers e patches o sistema tinha instalados, comparar com o banco de dados Microsoft, e oferecer downloads das atualizações faltantes.

Windows Update no Windows 98

O controle ActiveX (WUPDINFO.DLL) tinha permissões especiais para ler o registro do Windows e arquivos do sistema, identificando a versão exata de cada componente instalado. O usuário precisava iniciar o processo manualmente (não era automático como em versões posteriores), mas pelo menos o processo era unificado e guiado.

O Windows Update também introduziu o conceito de “Critical Updates” e “Recommended Updates, permitindo que usuários priorizassem patches de segurança críticos sobre atualizações opcionais de drivers ou recursos. Isso foi revolucionário para a época e estabeleceu o modelo que evoluiria para o Windows Update automático do Windows XP e posteriores.

Manutenção Agendada e Utilitários do Sistema

Windows 98 introduziu o Task Scheduler, permitindo que tarefas fossem agendadas para rodar automaticamente em horários específicos. Isso parece trivial hoje, mas era novidade significativa no Windows.

Task Scheduler

O Task Scheduler (implementado através do serviço MSTASK.EXE) usava arquivos .JOB para armazenar tarefas agendadas e suportava triggers complexos: horário específico, ao iniciar o sistema, quando o sistema ficasse ocioso, ou em intervalos regulares.

O sistema vinha pré-configurado com tarefas de manutenção agendadas:
  • Disk Defragmenter rodando automaticamente quando o sistema ficava ocioso. A fragmentação era um problema sério no FAT32, onde arquivos eram divididos em pedaços espalhados pelo disco, degradando drasticamente a performance de leitura.

  • ScanDisk verificando integridade do disco periodicamente. O ScanDisk detectava e reparava erros no sistema de arquivos, setores defeituosos e cross-linked files (arquivos que compartilhavam os mesmos clusters por corrupção).

  • Limpeza automática de arquivos temporários. O Windows 98 introduziu o Disk Cleanup (CLEANMGR.EXE), que identificava e removia arquivos temporários, cache de internet, lixeira e outros arquivos desnecessários.

Windows 98 também melhorou significativamente esses e alguns outros utilitários de sistema herdados do 95:

  • O Disk Defragmenter era mais rápido e podia rodar em background com prioridade baixa, pois a versão do Windows 98, baseada no engine da Diskeeper da Executive Software, era significativamente mais eficiente que a do Windows 95, conseguindo desfragmentar discos maiores em menos tempo.

  • O ScanDisk era mais robusto e conseguia reparar mais tipos de corrupção. Incluía melhor detecção de cross-linked clusters, lost chains (cadeias de clusters órfãos), e podia marcar setores defeituosos de forma mais confiável.

  • System Information (msinfo32) oferecia visão detalhada de hardware e software instalados. Mostrava informações sobre CPU, memória, dispositivos, drivers, conflitos de recursos (IRQ/DMA), e até histórico de erros do sistema.

  • System Configuration Utility (msconfig) permitia que usuários controlassem o que carregava no startup sem editar manualmente arquivos de configuração – Antes do msconfig, desabilitar programas de startup exigia editar manualmente WIN.INI, SYSTEM.INI, ou o registro. O msconfig oferecia uma interface gráfica simples para gerenciar startup, permitindo diagnóstico de problemas através de “boot seletivo”.

Melhorias no MS-DOS Subjacente

Embora o Windows 98 ainda fosse construído sobre MS-DOS (agora versão 7.1), várias melhorias foram feitas na camada DOS.

O suporte a FAT32 passou a ser nativo e ocorrer desde o boot, diferentemente do Windows 95 OSR2 onde FAT32 foi meio que “colado” depois. Isso significava que o IO.SYS (o kernel do MS-DOS) podia ler e escrever em partições FAT32 antes mesmo do Windows carregar, permitindo que ferramentas de recuperação e o modo de segurança funcionassem corretamente em discos FAT32.

Além disso, o boot do Windows 98 passou a incluir drivers CD-ROM genéricos (MSCDEX) no modo DOS, facilitando instalações e recuperações de sistema. Isso era crucial porque permitia que você bootasse de um disquete de emergência e ainda tivesse acesso ao CD-ROM para reinstalar o Windows ou restaurar arquivos.

Também foi melhorado o modo de compatibilidade para aplicativos DOS que rodavam no Windows 98, especialmente jogos que faziam acesso direto a hardware de som e vídeo. O Windows 98 melhorou o suporte a DPMI (DOS Protected Mode Interface) e VESA VBE (VESA BIOS Extensions), permitindo que jogos DOS mais modernos rodassem em janela ou tela cheia com melhor performance. Além disso, o suporte a Sound Blaster emulation foi aprimorado, permitindo que jogos DOS antigos funcionassem com placas de som modernas.

FAT32: Quebrando a Barreira dos 2 GB

Uma das limitações mais frustrantes do Windows 95 original era o sistema de arquivos FAT16 herdado do MS-DOS. FAT16 tinha um limite técnico de 2 GB por partição (ou 4 GB com clusters de 64 KB, mas às custas de um enorme desperdício de espaço).

A limitação do FAT16 era matemática. O nome “FAT16” vem do fato de usar endereços de 16 bits para identificar clusters no disco. Com 16 bits você pode endereçar no máximo 2^16 = 65.536 clusters. O tamanho da partição é determinado multiplicando o número de clusters pelo tamanho de cada cluster. Para manter o tamanho de cluster razoável (32 KB em uma partição de 2 GB), o limite prático era 2 GB. Tecnicamente você podia usar clusters de 64 KB e chegar a 4 GB, mas o slack space (desperdício) tornava isso impraticável.

Pelos anos 1995 e 1996, discos rígidos de 1-2 GB eram comuns. Mas já em 1997 e 1998, discos de 4 GB, 6 GB e 10 GB tornavam-se cada vez mais acessíveis. A lei de Moore (tá, eu sei que isso é para semicondutor mas é só para explicar a ideia mesmo) estava operando a pleno vapor no mercado de armazenamento: a densidade de armazenamento dobrava aproximadamente a cada 18 meses, enquanto os preços caíam vertiginosamente. Um disco de 1 GB que custava $500 em 1995 caiu para menos de $100 em 1998, enquanto discos de 10 GB tornavam-se disponíveis pelo mesmo preço (em real, US$ 500 de 1995 valem cerca de R$5.680 e US$ 100 de 1998 dão uns 1.065, considerando o dólar a 5,52 no dia em que escrevo este post). Com FAT16, um disco de 10 GB precisava ser dividido em cinco partições separadas (C:, D:, E:, F: e G:). Isso era um pesadelo de gerenciamento.

Fonte: Dados históricos de preços de hardware compilados de múltiplas fontes (McCallum, Our World in Data, relatórios da indústria), ajustados pela inflação para USD 2025. Note que há uma pequena elevaçao em 2011: foram enchentes na Tailândia que afetaram produção de HDs!

O problema não era apenas estético. Muitos programas da época eram codificados para instalar especificamente em C: e não ofereciam opção de escolher outra unidade (jogos tradicionalmente instalavam em C: por padrão). Isso criava situações absurdas onde você tinha gigabytes livres em D: ou E:, mas não conseguia instalar um programa porque C: estava cheia. Além disso, o gerenciamento de múltiplas partições confundia usuários comuns que não entendiam por que seu “disco de 10 GB” aparecia como cinco discos separados.

Sistema Tamanho Máx Partição Tamanho Máx Arquivo Cluster Mínimo
FAT16 2 GB (4 GB com clusters grandes) 2 GB 32 KB (disco 2GB)
FAT32 2 TB (limite Windows) 4 GB 4 KB
NTFS 256 TB 16 TB 4 KB

O OSR2 introduziu FAT32, uma extensão do FAT que usava endereçamento de 28 bits (teoricamente 32 bits, mas 4 bits eram reservados) ao invés dos 16 bits do FAT16. Isso aumentava dramaticamente o tamanho máximo de partição:

Com 28 bits de endereçamento, o FAT32 podia endereçar 2^28 = 268.435.456 clusters. Usando clusters de 4 KB, isso permitia partições de até 1 TB (terabyte). O limite de 2 TB mostrado na tabela era uma limitação do Windows, não do FAT32 em si. Especificamente, era uma limitação do Master Boot Record (MBR) que usava endereçamento de 32 bits para setores de 512 bytes, limitando discos a 2 TB.

Além de suportar partições muito maiores, FAT32 usava clusters menores, desperdiçando menos espaço. No FAT16, um disco de 2 GB usava clusters de 32 KB. Isso significava que um arquivo de 1 KB ocupava 32 KB de espaço no disco, resultando em desperdício de 31 KB! Esse desperdício, conhecido como slack space, era especialmente problemático para usuários com muitos arquivos pequenos. Um sistema típico do Windows 95 tinha milhares de arquivos pequenos: DLLs, arquivos de configuração (.INI), ícones, fontes e arquivos de ajuda. Em um disco de 2 GB com FAT16, o slack space acumulado podia facilmente chegar a 500 MB ou mais, representando um quarto do disco desperdiçado! Com clusters de 4 KB no FAT32, o desperdício era mínimo: em média apenas 2 KB por arquivo.

O Windows 98 padronizou o FAT32. Durante a instalação, se você formatava o disco, FAT32 era escolhido automaticamente (a menos que você explicitamente pedisse FAT16 por questões de compatibilidade). O instalador do Windows 98 detectava automaticamente o tamanho da partição e escolhia o tamanho de cluster ideal: 4 KB para partições até 8 GB, 8 KB para partições de 8-16 GB, 16 KB para 16-32 GB e 32 KB para partições maiores. O sistema incluía uma ferramenta CVT.EXE (FAT32 Converter) que convertia partições FAT16 existentes para FAT32 sem perder dados.

O processo de conversão do CVT.EXE era engenhoso mas arriscado. Ele funcionava reescrevendo a File Allocation Table (a estrutura de dados que mapeia quais clusters pertencem a quais arquivos) de 16 bits para 28 bits, reorganizando clusters quando necessário e atualizando o boot sector para indicar FAT32. O processo era não-destrutivo em teoria, mas uma queda de energia ou erro durante a conversão podia corromper toda a partição. Por isso a Microsoft recomendava fortemente fazer backup antes de converter.

Limitações do FAT32:

  • Arquivos individuais limitados a 4 GB: isso se tornaria problema alguns anos depois com vídeos de alta qualidade. O limite de 4 GB vinha do fato de que o FAT32 usava campos de 32 bits para armazenar o tamanho de arquivos, e 2^32 bytes = 4 GB. Em 1998 isso parecia mais que suficiente. Um CD-ROM tinha 650 MB, um DVD tinha 4.7 GB mas era dividido em múltiplos arquivos VOB. Mas com o advento de vídeo HD, arquivos de backup grandes e imagens de disco, o limite de 4 GB rapidamente se tornou problemático nos anos 2000.
  • Sem suporte a permissões de arquivo ou criptografia: diferente do NTFS do Windows NT, o FAT32 não tinha conceito de ACLs (Access Control Lists) ou EFS (Encrypting File System). Qualquer usuário com acesso físico ao disco podia ler qualquer arquivo. Isso era aceitável para PCs domésticos de usuário único, mas inadequado para ambientes corporativos.
  • Sem journaling: crashes ou quedas de energia podiam corromper o sistema de arquivos. O FAT32 não mantinha um log (journal) de operações pendentes, então se o sistema travasse no meio de uma escrita, a estrutura do sistema de arquivos podia ficar inconsistente. Isso exigia que o ScanDisk rodasse após cada crash, verificando e reparando a integridade do sistema de arquivos. Um processo que podia levar muitos minutos em discos grandes.
  • Fragmentação ainda era problema significativo: o FAT32, como o FAT16, não tinha mecanismos para prevenir fragmentação. Arquivos eram alocados no primeiro espaço livre disponível, resultando em arquivos divididos em dezenas ou centenas de fragmentos espalhados pelo disco. Isso degradava severamente a performance de leitura, especialmente em discos mecânicos onde o tempo de seek (movimento da cabeça de leitura) era o gargalo principal. A desfragmentação regular era essencial para manter a performance do sistema.

Para usuários domésticos em 1998, FAT32 era enorme melhoria sobre FAT16 e resolveu o problema de gerenciamento de discos grandes. O FAT32 permitiu que a indústria de PCs continuasse crescendo sem ser limitada por um sistema de arquivos obsoleto. Discos de 20 GB, 40 GB e eventualmente 80 GB tornaram-se comuns nos anos seguintes, e o FAT32 os suportava adequadamente. Foi apenas com o Windows XP em 2001, que finalmente unificou as linhas consumer e NT, que o NTFS se tornou o padrão para usuários domésticos, trazendo as vantagens de journaling, permissões e suporte a arquivos maiores que 4 GB.

USB: A Revolução dos Periféricos

A Promessa do USB

Antes do USB, um PC típico tinha várias portas diferentes (veja mais sobre essas portas aqui), uma para cada tipo de hardware:

  • 2 portas seriais (DB-9* ou DB-25) para mouse serial e modem externo
  • 1 porta paralela (DB-25 fêmea) para impressora
  • 2 portas PS/2 (mini-DIN) para teclado e mouse, introduzidas em 1987 mas ainda convivendo com conectores AT maiores
  • 1 porta joystick/MIDI (DB-15**) integrada à placa de som
  • Portas SCSI proprietárias (DB-25, Centronics 50 pinos ou conectores internos) em placas dedicadas para scanners e discos externos de alta performance

*Tecnicamente, o nome correto do DB-9 é DE-9 (carcaça pequena de 9 pinos)

**Tecnicamente, o nome correto do DB-15 é DA-15 (carcaça menor de 15 pinos em duas fileiras)

No total, podia haver de 6 a 8 tipos diferentes de conectores na parte traseira do gabinete. Cada um tinha cabos específicos, orientação confusa (muitos não eram simétricos e podiam ser forçados incorretamente) e havia a impossibilidade absoluta de hot-plug. Conectar ou desconectar qualquer dispositivo com o PC ligado podia causar danos físicos ou travamentos.

Além disso, cada porta consumia recursos preciosos do sistema:

  • COM1 (serial 1): IRQ 4, endereço I/O 3F8h
  • COM2 (serial 2): IRQ 3, endereço I/O 2F8h
  • LPT1 (paralela): IRQ 7, endereço I/O 378h
  • PS/2 (teclado): IRQ 1
  • PS/2 (mouse): IRQ 12

Em sistemas com apenas 16 IRQs disponíveis (0-15) e vários já reservados (IRQ 0 para timer, IRQ 2 para cascade, IRQ 6 para controlador de disquete, IRQ 13 para coprocessador matemático, IRQ 14/15 para IDE), adicionar uma placa de som, modem interno, placa de rede e controladora SCSI frequentemente resultava em conflitos de IRQ impossíveis de resolver sem remover um ou mais hardwares.

O USB (Universal Serial Bus) foi anunciado em 1996 com uma promessa revolucionária: um único tipo de conector para todos os periféricos. Acabariam os pesadelos de configuração de IRQ, DMA e endereços de I/O. Acabaria a bagunça de portas seriais, paralelas, PS/2, joystick, MIDI, cada uma com seu conector proprietário. Um único conector, um único IRQ, até 127 dispositivos.Seria o plug-and-play verdadeiro: conecta o dispositivo, o Windows detecta, instala o driver e funciona.

A Realidade Decepcionante do Windows 95

A realidade inicial com o Windows 95 foi bem diferente da promessa.

O Windows 95 RTM (lançado em agosto de 1995) não tinha suporte algum a USB. A especificação USB 1.0 só foi finalizada em janeiro de 1996, cinco meses após o lançamento do sistema. Quando o USB foi anunciado, o Windows 95 já estava nas lojas e adicionar suporte retroativo a uma tecnologia tão fundamental era tecnicamente complexo.

O Windows 95 OSR2 (OEM Service Release 2), lançado em agosto de 1996, adicionou suporte básico a USB mas era tão problemático que fabricantes de hardware simplesmente não investiam em dispositivos USB. Os problemas eram graves. Hot-plug causava BSOD frequentemente; assim, conectar ou desconectar um dispositivo USB com o sistema ligado tinha alta probabilidade de travar o Windows completamente, exigindo reinicialização forçada. Drivers USB genéricos não existiam e cada dispositivo precisava de driver específico do fabricante (um mouse USB da Logitech não funcionava com driver da Microsoft e precisava do disquete que vinha na caixa). Hubs USB raramente funcionavam com mais de 2-3 dispositivos conectados: a promessa de 127 dispositivos era teórica e, na prática, conectar 4 ou 5 dispositivos em um hub causava instabilidade. Muitas placas-mãe desabilitavam USB por padrão na BIOS devido aos problemas de compatibilidade com Windows 95, e usuários precisavam entrar na BIOS e habilitar manualmente, algo que a maioria não sabia fazer. O suporte era limitado a USB 1.0 inicial, que tinha bugs de especificação corrigidos apenas na versão 1.1.

Era o clássico problema do ovo e da galinha: sistemas operacionais não suportavam USB adequadamente porque não havia dispositivos no mercado e fabricantes não faziam dispositivos porque sistemas operacionais não suportavam. Entre 1996 e 1998, USB era uma tecnologia teoricamente revolucionária mas praticamente inutilizável.

Windows 98: O Ponto de Virada

O Windows 98 quebrou esse ciclo e foi o ponto de virada nessa tecnologia! A Microsoft investiu pesado em tornar USB não apenas funcional, mas confiável e prático.

Só preciso deixar claro um ponto: o Windows 98 chegou com suporte a USB 1.0. O suporte completo a USB 1.1 veio pouco depois, em setembro de 1998, inicialmente por patches e depois com o Windows 98 SE.

A especificação USB 1.1 , corrigiu problemas críticos da versão 1.0 e estabeleceu duas velocidades oficiais:

    • Low Speed (1.5 Mbps): Para dispositivos simples como teclados, mouses e joysticks, que enviam poucos dados mas exigem baixa latência.

    • Full Speed (12 Mbps): Para dispositivos mais complexos como impressoras, scanners, webcams, discos externos e placas de som USB.

O padrão USB 1.1 (em relação à 1.0) tornou hubs mais confiáveis (corrigindo problemas de sincronização que causavam travamentos quando um hub eram conectado a outro hub), melhorou o gerenciamento de energia (permitindo que dispositivos “dormissem” quando não usados), tornou especificação de classes de dispositivos mais clara, implementando e definindo padrões precios para classes como HID, Mass Storage e Audio (permitindo drivers genéricos funcionais) e corrigiu bugs de timing, resolvendo problemas de sincronização entre host e dispositivos que causavam perda de dados ou travamentos. O Windows 98 foi lançado com suporte a USB 1.0, mas atualizações incluídas no Windows 98 Second Edition (1999) e patches liberados via Windows Update implementaram suporte completo a USB 1.1.

A Microsoft desenvolveu drivers genéricos para classes comuns de dispositivos USB:

    • HID (Human Interface Devices): Teclados, mouses, joysticks, gamepads. Qualquer dispositivo HID-compliant funcionava imediatamente sem driver específico.

    • Mass Storage: Discos externos, pen drives (que ainda não existiam comercialmente, mas o suporte já estava implementado), leitores de cartão de memória. O Windows 98 tratava qualquer dispositivo USB Mass Storage como um drive comum, com letra de unidade automática.

    • Printers: Impressoras USB eram detectadas e configuradas automaticamente, usando drivers de impressora padrão do Windows ou fornecidos pelo fabricante.

    • Audio: Placas de som USB, headsets, microfones. Suporte a USB Audio Class permitia áudio digital sem placa de som dedicada.

    • Communications (CDC): Modems USB, adaptadores de rede USB.

Em outras palavras, um mouse USB genérico funcionava imediatamente ao ser conectado, sem disquete de instalação. O Windows detectava, carregava o driver HID padrão e o mouse estava operacional em segundos. Isso era revolucionário comparado ao Windows 95 OSR2, onde o mesmo mouse exigia driver específico do fabricante.

O Windows 98 implementou o suporte adequado a hubs USB, permitindo conectar múltiplos dispositivos em cascata. A especificação USB permite até 127 dispositivos em uma única porta USB através de hubs, até 5 níveis de profundidade de hubs (hub conectado a hub conectado a hub…) e distribuição inteligente de energia onde hubs podiam ser self-powered (com fonte própria) ou bus-powered (alimentados pela porta USB) e o Windows gerenciava limites de corrente (500 mA por porta). Na prática, conectar 4 dispositivos em um hub de 4 portas funcionava de forma confiável no Windows 98, algo impensável no Windows 95 OSR2.

Uma diferença crítica do Windows 98 sobre o Windows 95 foi poder conectar e desconectar dispositivos USB com o sistema ligado realmente funcionava de forma confiável. No Windows 95 OSR2, hot-plug de USB era uma roleta-russa, às vezes funcionando mas frequentemente causando travamentos e BSOD. Já no Windows 98, o sistema detectava conexão instantaneamente e iniciava processo de enumeração (identificação do dispositivo), carregava drivers automaticamente se disponíveis ou solicitava disco de instalação, atribuía recursos dinamicamente sem conflitos com hardware existente e permitia remoção segura através do ícone “Remover Hardware com Segurança” na bandeja do sistema, garantindo que nenhum dado seria perdido ao desconectar um disco USB.

Tudo isso transformou USB de uma tecnologia experimental em algo praticamente utilizável no dia a dia.

Apesar de todas essas inovações, o mundo não era perfeito e algumas limitações ainda existiam. Drivers ruins de fabricantes ainda causavam crashes: um driver USB mal escrito podia travar o sistema inteiro pois o Windows 98 não tinha proteção de memória satisfatória. Algumas placas-mãe tinham implementações USB ruins: controladores USB de baixa qualidade (especialmente em placas-mãe baratas) causavam problemas intermitentes como dispositivos não detectados, desconexões aleatórias ou travamentos. Dispositivos USB de alta largura de banda (como discos externos ou webcams de alta resolução) podiam saturar o barramento USB 1.1 de 12 Mbps, causando lentidão ou perda de dados. Compatibilidade precária com hubs de baixa qualidade que frequentemente não funcionavam direito. Mas pela primeira vez, USB funcionava bem o suficiente para que fabricantes começassem a adotar em massa.

O Impacto no Mercado (1998-2000)

Apesar de tudo, o mercado entendeu o poder do USB e, entre 1998 e 2000, a adoção de USB explodiu.

Mouses e teclados USB se tornaram comuns. Fabricantes como Logitech, Microsoft e Genius lançaram versões USB de seus produtos mais populares. A vantagem era clara: não consumiam porta PS/2 (liberando-a para outros usos), funcionavam imediatamente sem configuração, e podiam ser conectados/desconectados sem desligar o PC.

Impressoras USB começaram a dominar o mercado, substituindo rapidamente portas paralelas. Impressoras paralelas exigiam cabos grossos, curtos (máximo 3 metros, na prática 1,5-2 metros), e lentos (150 KB/s no modo EPP). Impressoras USB usavam cabos finos, permitiam até 5 metros de distância, e transferiam dados a 1,5 MB/s (Full Speed 12 Mbps). Além disso, não consumiam IRQ 7, liberando recursos para outras placas.

Scanners USB eram mais baratos e convenientes que SCSI. Scanners SCSI exigiam placa controladora dedicada (US$ 100-200), configuração complexa de IDs e terminação, e drivers problemáticos. Scanners USB custavam menos, conectavam diretamente ao PC, e funcionavam com drivers padrão TWAIN.

Webcams USB permitiram videoconferência doméstica pela primeira vez. Produtos como a Logitech QuickCam (US$ 99, resolução 320×240) se tornaram populares para chat de vídeo via NetMeeting ou ICQ. Antes do USB, câmeras de vídeo para PC exigiam placas de captura dedicadas que custavam centenas de dólares.

Saudoso ICQ, encerrado em 2024!

Joysticks e gamepads USB substituíram a porta joystick/MIDI (DB-15) das placas de som. Joysticks USB tinham mais botões, melhor precisão, e suporte a force feedback sem hardware adicional.

E o mais importante: pen drives USB, conhecidos mundo a fora como USB flash drive!

Fun Fact:  O primeiro pen drive comercial foi o IBM DiskOnKey, lançado em dezembro de 2000 com capacidade de 8 MB e preço de aproximadamente US$ 50 (US$ 6,25/MB, caríssimo se comparados com os US$ 0,05/MB dos HDs). O que falou alto foi a portabilidade e conveniência! Outros fabricantes seguiram a ideia: Trek ThumbDrive (8 MB, US$ 50), M-Systems DiskOnKey (16 MB, US$ 100), e SanDisk Cruzer (16 MB, US$ 80). Em 2001, modelos de 32 MB e 64 MB chegaram ao mercado, e os preços começaram a cair rapidamente. Com o surgimento e popularização dos pen drives, os disquetes de 1,44 MB viraram peças de museu. Pen drives tinham capacidade dezenas de vezes maior, eram mais rápidos, mais duráveis (sem partes móveis) e imunes a campos magnéticos. Em 2005, a maioria dos PCs novos já não incluía drive de disquete.

Olá, eu sou o IBM DiskonKey, com incríveis 8MB de memória!

Plug and Play, ACPI e o Fim dos Conflitos de Hardware

O Plug and Play (PnP) do Windows 95 era famoso por ser problemático. A brincadeira na época era que deveria se chamar “Plug and Pray” (conecte e reze) porque frequentemente não funcionava. Adicionar uma placa de som ou modem interno frequentemente resultava em conflitos de IRQ, drivers não detectados ou travamentos durante o boot. O Windows 95 detectava hardware fantasma (dispositivos que não existiam), não detectava hardware real, atribuía o mesmo IRQ para duas placas diferentes causando conflitos e o Device Manager mostrava ícones amarelos e vermelhos por toda parte. Configurar hardware no Windows 95 frequentemente exigia editar manualmente recursos no Device Manager, ajustar jumpers físicos nas placas ou até mesmo editar arquivos de configuração no modo DOS.

O Windows 98 Finalmente Acertou o Plug and Play

O Windows 98 não revolucionou o conceito de Plug and Play, mas simplesmente fez funcionar direito. A detecção de hardware durante o boot era mais rápida e precisa. O Windows 98 corrigiu bugs críticos no código de enumeração PCI e ISA PnP que causavam os problemas do Windows 95. Menos hardware fantasma, menos hardware não detectado, menos conflitos. Se você instalava uma nova placa de vídeo, placa de som ou modem, o Windows 98 detectava na inicialização e instalava drivers automaticamente (se disponíveis no CD do Windows ou fornecidos pelo fabricante). Na maioria dos casos, simplesmente funcionava.

O gerenciamento de IRQ, DMA e endereços de I/O era mais inteligente. O Windows 98 conseguia compartilhar IRQs entre dispositivos PCI de forma eficiente, algo que placas ISA não conseguiam fazer. Se duas placas tentavam usar o mesmo recurso, o Windows 98 tentava reatribuir automaticamente. Em sistemas com APIC (Advanced Programmable Interrupt Controller), o Windows 98 podia usar mais de 16 IRQs, reduzindo drasticamente os conflitos que eram endêmicos no Windows 95.

O Device Manager foi significativamente melhorado. A interface era mais informativa e os ícones de status eram mais claros: sem ícone significava que o dispositivo estava funcionando corretamente, ícone amarelo (ponto de exclamação) indicava problema detectado (driver não instalado, conflito de recursos ou dispositivo não funcionando), ícone vermelho (X) mostrava dispositivo desabilitado ou com erro crítico e ícone azul (interrogação) indicava hardware desconhecido ou driver não encontrado. Clicar em “Propriedades” → “Recursos” mostrava exatamente quais IRQ, DMA e endereços de I/O estavam sendo usados e se havia conflitos. Era possível desabilitar dispositivos problemáticos diretamente no Device Manager sem remover fisicamente o hardware, útil para diagnosticar problemas ou liberar recursos.

Motherboard Resources conflict in Device Manager (Windows 98 SE) \ VOGONS

ACPI: A Revolução no Gerenciamento de Energia

Além de corrigir o Plug and Play, o Windows 98 introduziu suporte nativo a ACPI (Advanced Configuration and Power Interface), uma revolução no gerenciamento de energia que substituía o antigo APM (Advanced Power Management). No modelo antigo (APM), a BIOS controlava tudo relacionado a energia e o sistema operacional apenas “pedia permissão” para entrar em standby ou desligar. A BIOS decidia quando desligar o monitor, quando desacelerar o processador, quando desligar discos rígidos. Diferentes BIOS implementavam APM de formas diferentes, resultando em comportamentos imprevisíveis e inconsistentes. Em alguns PCs, standby funcionava perfeitamente. Em outros, o sistema travava ao tentar retornar. Em outros ainda, standby simplesmente não funcionava.

Power management in Windows 98 SE (Power Management Properties)

Com o ACPI, o sistema operacional assume controle total. A BIOS fornece tabelas ACPI descrevendo o hardware disponível (processador, chipset, dispositivos, sensores de temperatura, controle de ventoinhas) mas o Windows decide todas as políticas de energia. Isso trouxe várias melhorias dramáticas.

A hibernação verdadeira (Hibernate) finalmente funcionava de forma confiável. O Windows salvava todo o conteúdo da RAM para o disco rígido (arquivo hiberfil.sys com tamanho igual à RAM instalada), desligava o sistema completamente consumindo zero energia e ao ligar restaurava o estado exato da RAM, retomando exatamente onde você parou com todos os programas abertos, documentos não salvos, tudo intacto. No Windows 95 com APM, hibernação era instável e frequentemente corrompia dados, forçando você a perder trabalho não salvo.

O Standby (Suspend to RAM) também ficou confiável. O sistema entrava em estado de baixo consumo mantendo apenas a RAM energizada com retorno quase instantâneo (2-3 segundos) ao mover o mouse ou pressionar uma tecla. No Windows 95, standby frequentemente falhava ao retornar, exigindo reset forçado e perda de trabalho.

O gerenciamento térmico também ficou inteligente, com o Windows controlando a velocidade de ventoinhas baseado em temperatura do processador e chipset. Processadores com suporte a throttling (redução dinâmica de clock) podiam ser desacelerados quando ociosos, reduzindo calor e consumo de energia. Isso era especialmente importante em notebooks, onde gerenciamento térmico inadequado causava superaquecimento e redução de vida útil da bateria.

O Wake-on-LAN permitia acordar o PC remotamente via rede Ethernet, útil para administração remota ou backups automáticos noturnos. USB wake-up permitia que mover o mouse USB ou pressionar uma tecla no teclado USB acordasse o PC do standby, enquanto no APM apenas dispositivos PS/2 podiam acordar o sistema.

O desligamento automático finalmente era padrão. Ao clicar em “Desligar” no menu Iniciar, o Windows fechava todos os programas, salvava configurações e desligava o PC automaticamente via ACPI. PCs antigos com APM ou sem gerenciamento de energia exibiam a famosa mensagem “Agora é seguro desligar o computador” e você tinha que pressionar o botão de força manualmente. Com ACPI, isso se tornou coisa do passado.

Mas é claro que ACPI no Windows 98 não era perfeito. Exigia BIOS compatível e placas-mãe antigas (anteriores a 1998) não tinham ACPI, apenas APM. Muitas BIOS tinham tabelas ACPI mal escritas causando problemas bizarros como travamentos ao entrar em standby, ventoinhas funcionando em velocidade máxima constante ou o sistema não desligando completamente. Drivers escritos para APM não funcionavam corretamente com ACPI, causando conflitos. Mas quando funcionava (especialmente em hardware projetado com ACPI em mente), ACPI no Windows 98 era dramaticamente superior ao APM do Windows 95.

Lembrei de outra coisa que a gente tinha que fazer quando iria desligar o PC: era o comando “park“. Nos primeiros discos rígidos para PCs (décadas de 1980 e início dos 1990), especialmente os que usavam interfaces MFM (Modified Frequency Modulation) e RLL (Run Length Limited), era necessário “estacionar” (park) as cabeças de leitura/gravação antes de desligar ou mover o computador. As cabeças de leitura ficavam a poucos micrômetros da superfície dos pratos magnéticos durante o funciomento do HD e quando o disco parava de girar, as cabeças simplesmente “pousavam” onde estivessem. Se isso acontecesse sobre uma área com dados, o impacto mecânico podia danificar a superfície magnética e corromper informações. O comando “park” (executado via utilitário DOS ou programa residente em memória) movia as cabeças para uma “zona de estacionamento” (parking zone) na borda interna do disco, uma área sem dados reservada especificamente para pouso seguro. Esquecer de fazer park antes de desligar ou transportar o PC podia resultar em perda de dados ou até mesmo dano físico permanente ao disco. Com a chegada dos discos IDE (Integrated Drive Electronics) no final dos anos 1980 e sua popularização nos anos 1990, essa prática se tornou desnecessária. Discos IDE (e posteriormente SATA) implementavam “auto-parking“: ao detectar perda de energia ou comando de desligamento, o disco automaticamente movia as cabeças para a zona de estacionamento usando a energia residual do motor (inércia dos pratos girando). Além disso, tecnologias modernas como “load/unload” (usadas desde meados dos anos 1990) movem as cabeças completamente para fora dos pratos quando o disco está desligado, eliminando qualquer risco de contato. Em 1998, com o Windows 98 e discos IDE dominando o mercado, o conceito de “park manual” já era uma coisa do passado, lembrado apenas por gente velha que usou PCs XT e AT nos anos 1980.

Os Problemas que Persistiam

Apesar de todas as melhorias, o Windows 98 não era imune a problemas de hardware.

Placas ISA legacy ainda existiam em 1998 e causavam conflitos constantes. O barramento ISA (Industry Standard Architecture), introduzido em 1981, não suportava Plug and Play nativamente. Essas placas exigiam configuração manual de jumpers ou software de configuração DOS para definir IRQ, DMA e endereços de I/O. Muitos PCs em 1998 ainda tinham placas de som ISA (Sound Blaster 16, AWE32) que consumiam IRQ 5, DMA 1 e 5 e endereços I/O 220h-22Fh, modems ISA internos que usavam IRQ 3 ou 4 (conflitando com portas seriais) e placas de rede ISA (NE2000 clones) que exigiam configuração manual. O Windows 98 tentava gerenciar tudo isso automaticamente através de ISA PnP (uma extensão do padrão ISA que permitia configuração via software) mas a convivência entre PCI (plug-and-play nativo) e ISA (configuração manual) era fonte constante de conflitos. Adicionar uma placa PCI podia “roubar” o IRQ de uma placa ISA, causando travamentos ou dispositivos não funcionais. Só com a morte do barramento ISA (início dos anos 2000, quando placas-mãe pararam de incluir slots ISA) o Plug and Play se tornou verdadeiramente confiável.

Drivers mal escritos ainda travavam o sistema. O Windows 98, como o Windows 95, não tinha proteção de memória adequada entre drivers de kernel. Um driver bugado (USB, placa de vídeo, placa de som, qualquer um) podia escrever em áreas de memória que não deveria, corrompendo o kernel e causando Blue Screen of Death (BSOD). Isso só seria resolvido no Windows 2000/XP com o kernel NT que tinha isolamento adequado de memória.

BIOS de placas-mãe bugadas também causavam problemas bizarros e imprevisíveis. Tabelas ACPI mal escritas faziam o Windows travar ao entrar em standby. Implementações USB defeituosas causavam desconexões aleatórias. Bugs de roteamento de IRQ PCI faziam dispositivos não funcionarem em certos slots da placa-mãe. Fabricantes de placas-mãe lançavam atualizações de BIOS constantemente para corrigir esses problemas mas atualizar BIOS era arriscado (falha durante atualização podia “brickar” a placa permanentemente) e poucos usuários faziam, preferindo conviver com os bugs.

Mas Era Muito, Muito Melhor

Comparado ao Windows 95, o Windows 98 era muito, muito melhor. O Windows 98 transformou Plug and Play de uma promessa não cumprida em uma realidade funcional na maioria dos casos. ACPI trouxe gerenciamento de energia confiável pela primeira vez em PCs domésticos. E com USB finalmente funcionando, a era dos conflitos de IRQ e configuração manual de hardware estava chegando ao fim. Em 2000, com hardware moderno (placas-mãe com BIOS ACPI adequada, apenas dispositivos PCI e USB, sem placas ISA legacy), o Windows 98 oferecia uma experiência de Plug and Play que realmente funcionava. Você instalava uma placa de vídeo nova, ligava o PC e simplesmente funcionava. Era o que o Windows 95 prometeu mas nunca entregou.

Internet Explorer 4.0 e a Integração Web Profunda

A integração do Internet Explorer 4.0 ao Windows 98 foi uma das decisões mais controversas e consequentes da Microsoft nos anos 90. Essa estratégia mudou permanentemente o mercado de navegadores, resultou em processos antitruste bilionários e definiu como sistemas operacionais e navegadores interagem até hoje.

A Batalha dos Navegadores: Como Tudo Começou

Um pouco de história antes de falar dessa Batalha do Browsers. Mas, para registro, ainda vou escrever um post apenas sobre esse assunto.

O primeiro browser foi o WorldWideWeb (que mudou de nome para Nexus para evitar confusão com a própria WWW, veja a emulação dele aqui!), criado no CERN em 1990 por Tim Berners-Lee, escrito em Objective-C e rodava apenas em computadores NeXT.

WorldWideWeb Browser

O mesmo autor, em 1991, criou o Line Mode Browser, o primeiro navegador não-gráfico multiplataforma, baseado apenas em texto (veja mais sobre ele aqui). Esse navegador, totalmente escrito em C, foi fundamental para demonstrar a viabilidade da jovem web!

Line Mode Browser

Mas o navegador não-gráfico popular foi Lynx, de 1992, escrito em ISO C e ainda mantido (última versão estável, no momento em que escrevo este texto, é de 31/05/2024, a 2.9.2!). Pode ser usado ainda por usuários sem interface gráfica!

Aqui é o Lynx renderizando, em texto, o conteúdo da Wikipedia sobre lobos (veja a página aqui!)
Já aqui é um comparativo entre o Lynx e o Firefox renderizando a mesma página. Fantástico!!!

Já o primeiro navegador gráfico foi ViolaWWW, criado em 1992 por Pei-Yuan Wei na Universidade da Califórnia em Berkeley. Foi escrita em C (componentes de baixo nível e a interface com o X11) e Viola (uma linguagem orientada a objetos criada pelo próprio Pei-Yuan Wei especificamente para esse projeto;  Viola era interpretada e tinha sintaxe similar a C/C++), suportava scripts, renderizava tabelas e formulários. Funcionava apenas em Unix/X11 (nunca foi portado para Windows ou Mac), era complexo de instalar e configurar, tinha bugs e travava frequentemente, além de ter sua distribuição limitada (principalmente universidades e centros de pesquisa). Essa linguagem, Viola, nunca se popularizou e foi abandonada quando o projeto ViolaWWW morreu em 1994, já que o projeto foi tocado quase que apenas pelo Pei-Yuan Wei. (Clique aqui para ver um pouco mais sobre Viola).

ViolaWWW

A estrela nesse começo da internet foi o NCSA Mosaic, escrito em C por por Marc Andreessen e Eric Bina no NCSA (National Center for Supercomputing Applications) da Universidade de Illinois em 1993, o primeiro navegador gráfico realmente popular. Usar C puro (sem uma linguagem proprietária como Viola) foi uma das razões do sucesso do Mosaic, pois a portabilidade para diferentes plataformas (Unix/X11, Windows, Mac) era muito mais fácil, além de que outros desenvolvedores conheciam C e podiam contribuir, somado ao fato de ter performance muito superior que linguagens interpretadas. Ainda, era fácil de instalar e usar (tinha a interface intuitiva), exibia imagens inline (dentro da página, não em janela separada como os navegadores anteriores), era gratuito, tinha distribuição ampla e era relativamente estável. Tudo isso fez o Mosaic foi responsável por popularizar a web entre usuários não técnicos e seu sucesso levou Marc Andreessen e Jim Clark a fundarem a Netscape em 1994. Veja aqui no YouTube uma reportagem sobre esses primeiros dias do Mosaic e do Netscape. Vale a pena ver!

Mosaic Browser

Para ver o Mosaic em funcionamento, você ver aqui no YouTube ou baixar aqui a versão 1.0 e rodar em um sistema da época, como o Windows 3.11 que instalamos aqui!

NCSA Mosaic rodando no Windows 3.11!

Fun Fact: O Netscape Navigator (sucessor espiritual do Mosaic) também foi escrito em C, assim como os primeiros Internet Explorers. Navegadores modernos como Firefox e Chrome ainda têm grandes partes escritas em C/C++, embora usem outras linguagens para componentes específicos (JavaScript engines, renderização, etc.).

Em 1996, Netscape Navigator já dominava completamente o mercado de navegadores web com mais de 80% de participação. A Netscape, fundada dois anos antes, havia transformado o navegador em um produto comercial de sucesso. O Netscape Navigator 2.0 e 3.0 eram tecnicamente superiores, suportavam JavaScript (criado pela própria Netscape), plugins como Flash e Java e eram os navegadores de escolha tanto para usuários domésticos quanto corporativos. A Netscape vendia o Navigator por US$ 49 (embora oferecesse versões gratuitas para uso pessoal e educacional) e tinha um negócio lucrativo vendendo servidores web corporativos.

A Microsoft tinha lançado versões iniciais do Internet Explorer (1.0 em agosto de 1995, baseado no código licenciado do Mosaic, e 2.0 em novembro de 1995) que eram tecnicamente inferiores e tinham pouca adoção. O IE 1.0 e 2.0 eram lentos, tinham suporte limitado a padrões web, travavam frequentemente e não suportavam tecnologias modernas como JavaScript ou frames. A maioria dos usuários que experimentava o IE rapidamente voltava para o Netscape.

O IE 3.0, lançado em agosto de 1996, finalmente era competitivo. Suportava CSS, JavaScript (implementação própria da Microsoft chamada JScript), ActiveX, frames e tinha performance comparável ao Netscape. Mas a Microsoft estava atrasada e precisava de uma vantagem estratégica para recuperar terreno perdido. A solução foi radical: integrar o navegador ao sistema operacional. O IE 4.0 não seria apenas um programa instalado, seria parte fundamental do Windows.

Active Desktop: O Futuro que Ninguém Pediu (e que Ninguém Gostou!)

A funcionalidade mais visível dessa integração era o Active Desktop, introduzido com IE 4.0 e integrado ao Windows 98. O Active Desktop transformava o desktop Windows em uma página HTML ativa. O papel de parede podia ser uma página web ativa atualizando automaticamente (imagine um papel de parede mostrando notícias ao vivo ou cotações de ações em tempo real). Os “Componentes de Desktop” eram mini-aplicações HTML que ficavam sempre visíveis: ticker de notícias da CNN, cotação de ações da bolsa, previsão do tempo, calendário interativo, tudo renderizado como HTML sobre o desktop tradicional. Ícones podiam ter thumbnails e metadados exibidos dinamicamente. O visual todo podia ser customizado com CSS, permitindo temas complexos e interativos.

Active Desktop – Fonte: Wikipedia.
Outro exemplo do Active Desktop. Fonte: https://www.soundonsound.com/techniques/all-about-windows-98

Na época, parecia futurista e inovador. Revistas de tecnologia elogiavam a visão da Microsoft de convergência entre desktop e web. Na prática, Active Desktop era lento (especialmente em máquinas com 32-64 MB de RAM, comum em 1998), consumia recursos desnecessariamente (renderizar HTML constantemente no background era pesado), travava frequentemente (componentes web mal escritos podiam travar o desktop inteiro) e a maioria dos usuários desabilitava para ganhar performance.

Active Desktop na prática era essa desgraça aí!

Apesar dos pesares, o Active Desktop demonstrava tecnicamente que a linha entre desktop e web já não era mais tão nítida, uma visão que se tornaria realidade décadas depois com Chromebooks e webapps.

Windows Explorer e Internet Explorer: A Mesma Coisa

A integração mais profunda e controversa era que o Windows Explorer (navegador de arquivos) e Internet Explorer (navegador web) eram agora efetivamente o mesmo programa compartilhando o mesmo engine de renderização. A barra de endereços do Windows Explorer podia navegar URLs, favoritos eram unificados
(favoritos do IE apareciam no menu Iniciar e no Explorer e adicionar um favorito em qualquer lugar o tornava disponível em todos os lugares), o histórico era unificado (sites visitados apareciam no histórico de arquivos acessados e vice-versa) e a barra de ferramentas era customizável da mesma forma em ambos. “Modo Web” no Explorer mostrava pastas como páginas HTML com visualizações thumbnail, descrições e metadados.

Tecnicamente, isso era implementado através do SHDOCVW.DLL (Shell Document Object and Control Library), um componente compartilhado que renderizava tanto HTML quanto views de pastas usando o mesmo engine Trident. Isso significava que remover o IE do Windows quebrava funcionalidades básicas do sistema operacional, incluindo o Windows Explorer, a ajuda do Windows (que era renderizada em HTML), o Windows Update (que funcionava via web) e vários componentes do Painel de Controle.

Consequências Legais nos Estados Unidos

Essa integração profunda levou ao famoso processo antitruste United States v. Microsoft Corp. O Departamento de Justiça dos EUA e 20 estados americanos entraram com ação em maio de 1998 argumentando que, como a Microsoft tinha o monopólio em sistemas operacionais para PC (mais de 90% de market share), integrar IE ao Windows era uma prática anticompetitiva pois usava esse monopólio para dominar o mercado de navegadores (já que era impossível desinstalar IE sem quebrar funcionalidades do Windows, forçando usuários a terem IE instalado mesmo se preferissem Netscape), além da Microsoft fazer acordos exclusivos com OEMs impedindo pré-instalação de navegadores concorrentes.

O julgamento começou em outubro de 1998 e foi um dos casos antitruste mais importantes da história da tecnologia. Executivos da Microsoft, incluindo Bill Gates (que deu depoimento em vídeo notoriamente evasivo e combativo), foram interrogados extensivamente. Emails internos revelados durante o processo mostravam que a Microsoft via Netscape como ameaça existencial e havia deliberadamente projetado a integração do IE para “cortar o suprimento de ar” da Netscape. Em junho de 2000, o juiz Thomas Penfield Jackson determinou que a Microsoft havia violado leis antitruste e ordenou que a empresa fosse dividida em duas (uma para Windows, outra para aplicações como Office e IE). Mas essa decisão foi revertida em apelação em 2001 (o juiz foi considerado parcial por ter dado entrevistas à imprensa durante o julgamento). Em novembro de 2001, chegou-se a um acordo onde a Microsoft concordava em compartilhar APIs com competidores, permitir que OEMs customizassem Windows e pré-instalassem software concorrente, e submeter-se a supervisão por 5 anos (depois estendida até 2011).

Consequências Legais na União Europeia

A Comissão Europeia abriu investigação separada em 1998. Em março de 2004, a UE determinou que a Microsoft havia abusado de posição dominante ao integrar o Windows Media Player ao Windows (caso similar ao IE) e recusou-se a fornecer documentação de interoperabilidade para servidores concorrentes. A Microsoft foi multada em €497 milhões (na época cerca de US$ 600 milhões) e obrigada a oferecer uma versão do Windows sem Media Player (Windows XP N Edition). Em janeiro de 2009, a UE iniciou nova investigação sobre integração do IE ao Windows. Para evitar multas maiores, em dezembro de 2009 a Microsoft concordou em oferecer uma “tela de escolha de navegador” (Browser Choice Screen) para usuários europeus do Windows, permitindo escolher entre IE, Firefox, Chrome, Opera, Safari e outros durante a instalação. Essa tela de escolha foi obrigatória na Europa de março de 2010 até dezembro de 2014. Em 2013, a Microsoft foi multada em €561 milhões por ter falhado em exibir a tela de escolha corretamente em algumas versões do Windows 7 entre 2011 e 2012.

BrowserChoice.eu

A Estratégia Funcionou

Independente das consequências legais (que custaram à Microsoft bilhões em multas e honorários advocatícios), a estratégia funcionou tecnicamente e comercialmente. O market share do Internet Explorer cresceu rapidamente: em 2002, Netscape estava morto como força comercial.

Em janeiro de 1998, vendo que estava perdendo a guerra dos navegadores, a Netscape tomou a decisão radical de liberar o código do Communicator como open source, criando o projeto Mozilla.org. A esperança era que desenvolvedores da comunidade ajudassem a competir com a Microsoft. Em novembro de 1998, a AOL comprou a Netscape por US$ 4.2 bilhões, interessada principalmente nos ativos de portal web (Netcenter) e tecnologia de servidor, não tanto no navegador. A AOL continuou desenvolvendo o Netscape Navigator 6 (2000) e 7 (2002), baseados no novo engine Gecko reescrito do zero, mas ambos tinham bugs, eram lentos e tinham adoção mínima. Em julho de 2003, a AOL demitiu a maior parte da equipe do Netscape e o projeto comercial foi efetivamente abandonado. Mas o código open source do projeto Mozilla continuou evoluindo e em 2004 a Mozilla Foundation lançou o Firefox 1.0, que finalmente conseguiria desafiar a dominância do IE.

Essa dominância duraria até meados dos anos 2000, quando Firefox (2004) e especialmente Chrome (2008) começaram a mudar o cenário novamente. Ironicamente, a Microsoft repetiria o erro da Netscape: com dominância de mercado esmagadora, o desenvolvimento do IE estagnou. O IE 6 (lançado em 2001) permaneceu praticamente inalterado até o IE 7 (2006), acumulando problemas de segurança, bugs e falta de suporte a padrões web modernos. Isso abriu espaço para Firefox e Chrome, que ofereciam navegação mais rápida, mais segura e mais compatível com padrões. Em 2022, a Microsoft anunciou o fim do suporte oficial ao IE.

Em 2025, o IE está morto e o Microsoft Edge (baseado no Chromium, o mesmo engine do Chrome), o navegador da Microsoft, tem menos de 5% de market share global.

Market Share dos Principais Navegadores (1993-2025). Fontes: StatCounter Global Stats, Visual Capitalist, Statista

Windows 98 e seus Concorrentes

O Windows 98 não estava sozinho no mercado de sistemas operacionais para PCs domésticos e corporativos. Vários sistemas operacionais disputavam espaço, cada um com suas forças e fraquezas. Vamos analisar os 4 principais concorrentes.

1. Mac OS 8 / Mac OS 9 (Apple)

Histórico

O Mac OS 8 foi lançado em julho de 1997, poucos meses antes do Windows 98, e o Mac OS 9 em outubro de 1999. Ambos representavam a evolução do clássico System 7 da Apple e foram os últimos sistemas operacionais da linha “Classic Mac OS” antes da revolução do Mac OS X (baseado em Unix) em 2001. Na época, a Apple estava em crise financeira grave e só não faliu em 1997 porque foi salva por um investimento de US$ 150 milhões da Microsoft (ironicamente) e pelo retorno de Steve Jobs como CEO interino (veja aqui).

Hardware: A Era PowerPC

O Mac OS 8 e 9 rodavam em uma plataforma de hardware completamente diferente dos PCs com Windows 98. Enquanto PCs usavam processadores Intel Pentium II/III ou AMD K6/Athlon (arquitetura x86), os Macs usavam processadores PowerPC, resultado da aliança AIM (Apple-IBM-Motorola) formada em 1991. A Apple havia migrado de processadores Motorola 68000 (usados desde o primeiro Macintosh em 1984) para PowerPC em 1994 com o Power Macintosh 6100. Em 1997-1999, quando o Mac OS 8/9 dominava, a transição estava completa e praticamente todos os Macs vendidos usavam PowerPC.

Os processadores PowerPC da época incluíam o PowerPC 603e (120-300 MHz, usado em PowerBooks e iMacs de primeira geração, focado em eficiência energética), o PowerPC 604e (200-350 MHz, usado em Power Macintosh de gama alta, melhor performance bruta), o PowerPC G3 (233-500 MHz, lançado em 1997, grande salto de performance usado no icônico iMac G3 de 1998) e o PowerPC G4 (400-500 MHz, lançado em 1999, primeiro processador “supercomputer” para desktops segundo o marketing da Apple, com unidade vetorial AltiVec). Já falamos do AltiVec aqui!

PowerPC 740L 300MHz

O hardware típico de um Mac rodando Mac OS 8/9 incluía 32-128 MB de RAM (mínimo 32 MB para Mac OS 8, 64 MB para Mac OS 9), discos rígidos SCSI ou IDE de 2-10 GB e drives de CD-ROM ou CD-RW. Os modelos mais icônicos dessa era foram o iMac G3 (1998), o computador all-in-one translúcido que salvou a Apple da falência com seu design revolucionário e preço de US$ 1.299, o Power Macintosh G4 (1999), desktop profissional torre usado para design gráfico e edição de vídeo, e o PowerBook G3 (1997-2001), notebook profissional premium.

Os “sabores” do iMac G3!

A comparação de performance entre PowerPC e x86 era complexa e controversa. A Apple alegava que “MHz por MHz”, PowerPC era mais rápido que Pentium (campanha de marketing “MHz Myth”). Em algumas tarefas, especialmente processamento vetorial com AltiVec, isso era verdade. Mas em aplicações gerais, um Pentium III de 500 MHz era comparável ou superior a um PowerPC G3/G4 de 500 MHz. O problema maior era preço: Macs custavam 50-100% mais que PCs equivalentes. Um iMac G3 custava US$ 1.299-1.499, enquanto um PC com Windows 98 comparável custava US$ 800-1.200.

Principais Características

O Mac OS 8/9 tinha umaa interface gráfica elegante e intuitiva conhecida como Platinum Appearance, com suporte nativo a multitarefa cooperativa (não preemptiva, similar ao Windows 95/98).

Mac OS 8.0
Mac OS 9.2

O sistema incluía o Sherlock, uma ferramenta de busca avançada integrada que era muito superior ao sistema de busca do Windows 98.

Sherlock no Mac OS 9.2

Para profissionais de design, havia o ColorSync, um sistema de gerenciamento de cores profissional que garantia consistência entre monitor, impressora e scanner. O QuickTime vinha integrado ao sistema, oferecendo reprodução de vídeo e áudio muito superior ao Windows Media Player da época. O AppleScript permitia automação poderosa de tarefas através de scripts simples. O Mac OS 9 adicionou o Keychain para gerenciamento centralizado de senhas, suporte a múltiplos usuários (cada um com seu próprio desktop e configurações) e melhorias significativas de estabilidade.

Vantagens sobre o Windows 98

A interface mais polida e consistente do Mac OS era um ponto muito forte. Todos os aplicativos Mac seguiam as Human Interface Guidelines rigorosas da Apple, resultando em uma experiência mais uniforme e previsível. Além disso, era o melhor sistema para design gráfico e edição de vídeo, pois tinha hardware e software otimizados para criação de conteúdo, com suporte superior a gerenciamento de cores e fontes. A base instalada menor de Macs tornava o sistema menos atrativo para criadores de vírus e malware, resultando em um ambiente mais seguro. O Plug and Play realmente funcionava: adicionar periféricos em Macs era geralmente mais simples e confiável do que no Windows 98, onde conflitos de hardware ainda eram comuns. O QuickTime era tecnicamente superior ao Windows Media Player para reprodução e edição de vídeo, com suporte a mais formatos e melhor qualidade de renderização.

Desvantagens comparadas ao Windows 98

O maior problema do Mac OS era o hardware proprietário e caro. Macs custavam 2-3 vezes mais que PCs equivalentes e você só podia comprar da Apple, sem opção de montar seu próprio computador ou escolher entre diferentes fabricantes. O catálogo de software era outro problema, pois a maioria dos jogos, aplicativos corporativos e software de nicho só existia para Windows. Se você precisava de um programa específico para trabalho ou queria jogar os últimos lançamentos, provavelmente não havia versão para Mac. A multitarefa cooperativa (não preemptiva) era um problema sério: um aplicativo travado podia derrubar o sistema inteiro, problema que o Windows 98 também tinha mas que era pior no Mac OS devido à forma como o sistema gerenciava processos. O gerenciamento de memória virtual era ineficiente comparado ao Windows, causando lentidão significativa em máquinas com pouca RAM. O market share minúsculo era outro obstáculo: em 1998, Macs tinham menos de 5% do mercado de PCs, tornando difícil justificar desenvolvimento de software para a plataforma do ponto de vista comercial.

Por que o Windows 98 ganhou

O Windows 98 venceu principalmente por preço e disponibilidade. PCs com Windows eram mais baratos e vendidos por dezenas de fabricantes (Dell, HP, Compaq, Gateway, etc.), enquanto Macs só vinham da Apple com preços premium. A compatibilidade de software era esmagadora: praticamente todo software comercial existia para Windows, enquanto versões Mac eram raras ou inexistentes. A indústria de jogos para PC era completamente dominada por Windows, com DirectX se tornando o padrão da indústria. No ambiente corporativo, a TI era dominada por Windows e servidores Windows NT, tornando Macs incompatíveis com a infraestrutura existente e difíceis de suportar. Além disso, entre 1995 e 1998, havia dúvidas reais se a Apple sobreviveria como empresa, fazendo empresas e consumidores hesitarem em investir na plataforma por medo de ficarem sem suporte futuro.

2. OS/2 Warp 4 (IBM)

Histórico

O OS/2 foi originalmente desenvolvido em parceria entre IBM e Microsoft no final dos anos 1980 como sucessor do DOS. A ideia era criar um sistema operacional moderno de 32 bits que substituiria tanto o DOS quanto o Windows. Mas a parceria subiu no telhado em 1991 quando a Microsoft decidiu focar no Windows 3.0 (que estava sendo um sucesso comercial) ao invés do OS/2. A IBM continuou desenvolvendo o OS/2 sozinha, lançando o OS/2 Warp 3 em 1994 e o OS/2 Warp 4 em setembro de 1996.

O Warp 4 era tecnicamente superior ao Windows 95/98 em vários aspectos fundamentais, mas sofria de falta de suporte de terceiros e soria mais ainda com fraco marketing da IBM.

Já instalamos o OS/2 Warp 4 aqui (em 2018, no VMWare) e aqui (em 2023, no VirtualBox). Também já contamos esta história aquiaqui e principalmente aqui (no tópico sobre o OS/2).

Principais Características

O OS/2 Warp 4 tinha multitarefa preemptiva real com um kernel de 32 bits puro, sem código de 16 bits herdado como o Windows 98 tinha. Isso significava mais estabilidade e maior performance. O sistema incluía proteção de memória robusta entre aplicações, onde um aplicativo travado não derrubava o sistema inteiro. O sistema de arquivos HPFS (High Performance File System) era superior ao FAT16/FAT32 em performance, confiabilidade e recursos como nomes de arquivo longos e atributos estendidos. Uma característica impressionante era a compatibilidade com aplicativos DOS e Windows 3.1: o OS/2 rodava software Windows melhor que o próprio Windows em alguns casos, com melhor isolamento e estabilidade. A Workplace Shell era uma interface orientada a objetos revolucionária para a época, muito mais poderosa e customizável que o Windows Explorer. O sistema tinha suporte nativo a Java e rede integrada com TCP/IP, NetBIOS e IPX/SPX.

Vantagens sobre o Windows 98

A estabilidade do OS/2 Warp 4 era muito superior ao Windows 98. A multitarefa preemptiva e a proteção de memória significavam menos travamentos e praticamente nenhum equivalente aos Blue Screens do Windows. A performance era notavelmente melhor: o HPFS era mais rápido que o FAT32 e o kernel era mais eficiente, resultando em sistema mais responsivo mesmo em hardware modesto. A compatibilidade com Windows era um trunfo inesperado: o OS/2 rodava aplicativos Windows 3.1 nativamente, às vezes com melhor estabilidade que o próprio Windows porque cada aplicativo rodava em sua própria sessão protegida. A Workplace Shell era mais poderosa e customizável que o Windows Explorer, permitindo criar objetos, templates e automações complexas. A segurança era superior devido ao melhor isolamento entre processos e usuários. Basicamente, o OS/2 era o Windows que o Windows gostaria de ser!

Desvantagens comparadas ao Windows 98

O suporte de hardware era o calcanhar de Aquiles do OS/2. Drivers eram escassos e muitos periféricos simplesmente não funcionavam, especialmente hardware mais novo. Não havia suporte a DirectX, então jogos para Windows não rodavam (apenas os jogos para DOS antigos funcionavam). O catálogo de software nativo era minúsculo: pouquíssimos desenvolvedores criavam software especificamente para OS/2, e a compatibilidade com Windows 3.1 não ajudava porque o mercado já estava migrando para aplicativos de 32 bits para Windows 95/98. Era o mesmo problema que o Mac OS8/9 sofria…

O marketing da IBM também era um problema, era fraco e confuso: a empresa não investiu adequadamente para seduzir desenvolvedores nem em campanhas publicitárias efetivas. O preço era outro problema: o OS/2 Warp 4 custava US$ 99-149 na caixa, enquanto o Windows 98 vinha pré-instalado “de graça” em PCs novos. A complexidade de configuração e administração era maior que o Windows, tornando-o menos acessível para usuários comuns.

Por que o Windows 98 ganhou

O Windows 98 venceu principalmente pelo ecossistema. Windows tinha suporte massivo de hardware e software, enquanto OS/2 era um nicho cada vez menor. A indústria de jogos era exclusiva do Windows: DirectX e o suporte de desenvolvedores de jogos simplesmente não existiam para OS/2. A pré-instalação era decisiva: praticamente todo PC novo vinha com Windows, enquanto OS/2 tinha que ser comprado separadamente e instalado manualmente, algo que a maioria dos usuários não queria fazer. A IBM essencialmente desistiu: em 2001, a IBM anunciou o fim do desenvolvimento ativo do OS/2, focando seus esforços em Linux. O OS/2 era tecnicamente superior mas comercialmente irrelevante, uma lição de que a tecnologia melhor nem sempre vence no mercado.

Atualmente o OS/2 ainda sobrevive como o eComStation (2001 a 2013) e o ArcaOS (2017 até o momento)

eComStation
ArcaOS 5.0
ArcaOS rodando Shell, QBasic em uma janela de DOS e o Program Manager do Windows 3.1!

3. Linux (Red Hat, Debian, SuSE)

Histórico

O Linux (tecnicamente GNU/Linux) foi criado por Linus Torvalds em 1991 como um kernel Unix-like livre e open source. Em 1998, várias distribuições Linux estavam disponíveis e começando a ganhar tração. O Red Hat Linux 5.x era a distribuição mais popular comercialmente, com suporte corporativo e foco em servidores. O Debian 2.x era focado em estabilidade e software 100% livre, sendo a escolha de puristas e entusiastas. O SuSE Linux 5.x/6.x era popular na Europa, especialmente na Alemanha, com ferramentas de configuração mais amigáveis. O Slackware era a distribuição mais antiga ainda ativa, focada em simplicidade e proximidade ao Unix tradicional. Em 1998, Linux era usado principalmente em servidores web e por entusiastas técnicos, não por usuários domésticos comuns.

Principais Características

O Linux era completamente gratuito e open source, com código-fonte disponível para qualquer um modificar. O kernel Unix oferecia multitarefa preemptiva real e proteção de memória robusta desde o início. Os sistemas de arquivos eram avançados: ext2 era o padrão, com ext3 e ReiserFS chegando logo depois, oferecendo journaling e melhor confiabilidade que FAT32. A interface gráfica era opcional via X Window System, com ambientes desktop como KDE e GNOME (ambos lançados em 1998) começando a tornar Linux mais acessível. O sistema vinha com ferramentas de desenvolvimento poderosas incluídas (GCC, Perl, Python, make, etc.), tornando-o ideal para programadores. Para servidores, Linux era excelente: Apache, Samba, Sendmail e outras ferramentas corporativas rodavam nativamente com performance superior. O networking era avançado com suporte nativo a TCP/IP, NFS, SMB e praticamente qualquer protocolo de rede existente.

Vantagens sobre o Windows 98

O custo zero era uma vantagem óbvia: você podia baixar e instalar Linux gratuitamente, importante para empresas com orçamento limitado e usuários em países em desenvolvimento. A estabilidade muito superior era outro diferencial: o kernel Unix-like era robusto e confiável, com servidores Linux rodando por meses ou anos sem reiniciar. A segurança era melhor por design: o modelo de permissões Unix separava claramente usuários e root (administrador) e a base instalada menor tornava Linux um alvo menos atrativo para vírus. A customização era total: sendo open source, você podia modificar qualquer aspecto do sistema, desde o kernel até a interface gráfica. A performance em hardware antigo era impressionante: Linux rodava bem em máquinas com 16-32 MB de RAM onde Windows 98 era praticamente inutilizável. Para servidores, Linux era ideal: o Apache no Linux dominava o mercado de servidores web, e ferramentas como Samba permitiam integração com redes Windows.

Desvantagens comparadas ao Windows 98

Por outro lado, muito do que era vantagem para o Linux também era desvantagem! A interface gráfica em 1998 era primitiva e problemática. KDE e GNOME estavam em versões iniciais (0.x e 1.x), eram instáveis, visualmente pouco atraentes e travavam frequentemente.

GNOME 1.0
KDE 1.0

Muitas tarefas ainda exigiam linha de comando, algo assustador para usuários comuns que tinham pulado o DOS (mesmo que usou o DOS já preferia as interfaces gráficas). O suporte de hardware era terrível: placas de vídeo, placas de som, impressoras e scanners frequentemente não tinham drivers Linux, ou os drivers disponíveis eram de baixa qualidade e difíceis de instalar. Configurar hardware muitas vezes exigia editar arquivos de configuração manualmente e recompilar o kernel. O software de produtividade era escasso: não havia Microsoft Office (o OpenOffice só seria lançado em 2000), não havia Photoshop, não havia AutoCAD. As alternativas open source (GIMP, StarOffice) eram inferiores e tinham compatibilidade limitada com formatos Windows. Jogos eram praticamente inexistentes: alguns jogos id Software (Quake, etc.) tinham versões Linux, mas 99% dos jogos eram exclusivos Windows. A instalação e configuração eram complexas: instalar Linux em 1998 exigia conhecimento técnico, particionar discos manualmente, resolver dependências de pacotes e configurar o X Window System manualmente. A documentação era fragmentada e frequentemente desatualizada.

Por que o Windows 98 ganhou

O Windows 98 venceu no desktop porque era simplesmente mais fácil de usar. A interface gráfica funcionava out-of-the-box, sem configuração manual. O hardware era suportado: praticamente qualquer periférico tinha drivers Windows. O software existia: Office, Photoshop, jogos, tudo estava disponível para Windows. Para usuários domésticos e corporativos, Linux em 1998 era simplesmente inviável como sistema desktop. Linux venceu nos servidores (onde estabilidade e custo importavam mais que interface gráfica), mas no desktop o Windows dominou completamente. Só nos anos 2000, com Ubuntu (2004) e melhorias dramáticas em usabilidade, Linux começaria a ser viável para usuários não-técnicos, mas mesmo assim nunca ultrapassou 2-3% de market share no desktop.

4. Windows NT 4.0 Workstation (Microsoft)

Histórico

O Windows NT 4.0 foi lançado em julho de 1996, dois anos antes do Windows 98. Pode parecer estranho listar um produto da própria Microsoft como concorrente, mas o Windows NT 4.0 Workstation competia diretamente com o Windows 98 no mercado corporativo e de usuários avançados. Já fizemos a instalação dele aqui! Leia porque está muito bom!

O NT (New Technology) era uma linha completamente separada de sistemas operacionais da Microsoft, com arquitetura diferente, kernel diferente e objetivos diferentes. Enquanto o Windows 95/98 era focado em compatibilidade e facilidade de uso doméstico, o NT era focado em estabilidade, segurança e uso corporativo.

Principais Características

O Windows NT 4.0 tinha arquitetura de kernel completamente diferente do Windows 98. Era um sistema operacional de 32 bits puro, sem código de 16 bits herdado do DOS. O kernel era baseado no microkernel híbrido desenvolvido pela equipe de Dave Cutler (ex-DEC), com multitarefa preemptiva real e proteção de memória robusta. O sistema de arquivos NTFS era muito superior ao FAT32: suportava permissões de arquivo granulares, journaling (recuperação de falhas), compressão transparente, criptografia e quotas de disco. A interface gráfica era praticamente idêntica ao Windows 95 (Microsoft havia portado a interface do Windows 95 para o NT 4.0), tornando a transição familiar para usuários. O sistema tinha suporte robusto a redes corporativas com integração nativa a Active Directory (no Windows 2000, sucessor do NT 4.0), domínios Windows e autenticação centralizada. A segurança era muito superior com modelo de permissões baseado em ACLs (Access Control Lists) e separação clara entre usuários e administradores.

Windows NT 4

Vantagens sobre o Windows 98

A estabilidade do Windows NT 4.0 era muito, muito superior. Um aplicativo travado não derrubava o sistema inteiro graças à proteção de memória adequada. BSOD eram raros (exceto por drivers mal escritos). A segurança era muito melhor, pois o modelo de permissões NTFS e a separação de privilégios tornavam o sistema mais resistente a vírus e malware. Para ambientes corporativos, o NT tinha integração com domínios Windows, políticas de grupo e gerenciamento centralizado de usuários e computadores. O NTFS era superior ao FAT32 em todos os aspectos: mais confiável, mais rápido, com recursos avançados. O sistema era certificado para uso em ambientes críticos e tinha suporte corporativo adequado da Microsoft.

Desvantagens comparadas ao Windows 98

O suporte de hardware era o calcanhar de Aquiles do NT 4. Muitos drivers de dispositivos (especialmente placas de vídeo, placas de som e periféricos) não existiam para NT ou eram de qualidade inferior. Jogos não funcionavam: DirectX no NT 4.0 era limitado (apenas DirectX 3.0), então a maioria dos jogos simplesmente não rodava ou rodava mal. A compatibilidade com software legado era problemática: aplicativos DOS e Windows 3.1 que acessavam hardware diretamente não funcionavam no NT devido às restrições de segurança. O consumo de recursos era maior: o NT 4.0 exigia no mínimo 32 MB de RAM (recomendado 64 MB) enquanto o Windows 98 rodava razoavelmente com 16-32 MB. E o preço era muito mais alto: o Windows NT 4.0 Workstation custava US$ 319 na caixa, enquanto o Windows 98 custava US$ 89 (e vinha pré-instalado na maioria dos PCs). A instalação e configuração eram mais complexas, exigindo conhecimento técnico maior.

Por que o Windows 98 ganhou (no mercado doméstico)

O Windows 98 dominou o mercado doméstico porque era mais barato, vinha pré-instalado em PCs novos e suportava jogos. Para usuários domésticos, a estabilidade superior do NT não compensava a falta de suporte a jogos e hardware. O NT 4.0 venceu no mercado corporativo (estações de trabalho profissionais, servidores), mas no mercado doméstico o Windows 98 era imbatível. A Microsoft essencialmente manteve duas linhas de produtos até 2001, quando o Windows XP finalmente unificou as linhas consumer (95/98/ME) e corporativa (NT/2000) em um único sistema operacional baseado no kernel NT mas com suporte adequado a jogos e hardware doméstico.

Resumo: Por que o Windows 98 venceu todos

O Windows 98 venceu a batalha dos sistemas operacionais de 1998-2000 não por ser tecnicamente superior (porque não era mesmo), mas por ter o ecossistema certo: suporte massivo de hardware, catálogo gigantesco de software, especialmente jogos, preço acessível, facilidade de uso para usuários comuns e domínio de mercado auto-reforçante (quanto mais gente usava Windows, mais desenvolvedores criavam software para Windows, atraindo mais usuários). Os concorrentes eram tecnicamente superiores em vários aspectos (Mac OS em design, OS/2 em estabilidade, Linux em custo e segurança, NT em robustez), mas nenhum conseguia competir com o ecossistema completo que a Microsoft havia construído.

Lançamento, Market Share e Domínio de Mercado

O Lançamento do Windows 98

O Windows 98 foi oficialmente lançado em 25 de junho de 1998, exatamente 2 anos, 10 meses e 10 dias após o lançamento do Windows 95. A Microsoft organizou um evento de lançamento massivo no Moscone Center em São Francisco, com apresentação de Bill Gates e demonstrações ao vivo das novas funcionalidades. O evento ficou famoso por um incidente embaraçoso: durante a demonstração ao vivo do Plug and Play, o sistema travou com um Blue Screen of Death quando Bill Gates tentou conectar um scanner. O momento foi capturado por câmeras e se tornou viral (na medida do possível em 1998). Gates, com grande presença de espírito, só pode soltar essa frase: “This must be why we’re not shipping Windows 98 yet” ou algo como “Deve ser por isso que ainda não estamos distribuindo o Windows 98″… Hilário!

A campanha de marketing da Microsoft foi massiva, com orçamento estimado em US$ 200-300 milhões. A estratégia incluía comerciais de TV durante horário nobre, anúncios em revistas de tecnologia e negócios, parcerias com fabricantes de PCs (OEMs) para pré-instalação, eventos de lançamento em lojas de varejo (CompUSA, Best Buy, etc.) e tour promocional “Windows 98 Road Show” visitando cidades nos EUA e internacionalmente. A Microsoft também distribuiu milhões de CDs de demonstração gratuitos em revistas de tecnologia, permitindo que usuários experimentassem o Windows 98 sem comprar.

Teve, é claro, dancinha do Steve Ballmer (que, de algum modo, convenceu o Gates que seria legal)!

O preço de varejo do Windows 98 era US$ 89,95 para a versão de atualização (upgrade) e US$ 209,95 para a versão completa (full version). Para comparação, o Windows 95 havia custado US$ 89 (upgrade) e US$ 209 (full) em 1995, então os preços permaneceram praticamente idênticos. No entanto, a grande maioria dos usuários nunca pagou diretamente pelo Windows 98: o sistema vinha pré-instalado em PCs novos, com o custo embutido no preço total do computador através de acordos OEM.

A recepção crítica foi mista. Revistas de tecnologia como PC Magazine, PC World e InfoWorld elogiaram as melhorias de estabilidade, o suporte a USB e FAT32, e a integração com a internet. Mas também criticaram o sistema por ser essencialmente um “Windows 95 e meio”, uma atualização incremental ao invés de revolução, por ainda ter problemas de estabilidade (Blue Screens continuavam comuns) e pela integração forçada do Internet Explorer, que estava no centro do processo antitruste. O consenso era que o Windows 98 era melhor que o Windows 95, mas não justificava upgrade imediato para quem já tinha Windows 95 funcionando bem, principalmente o Windows 95 OSR 2.

Apesar da recepção morna da crítica, as vendas foram explosivas. A Microsoft vendeu mais de 10 milhões de cópias do Windows 98 nos primeiros 4 meses (junho-outubro 1998), superando as vendas iniciais do Windows 95. No primeiro ano (junho 1998 – junho 1999), foram vendidas aproximadamente 40-50 milhões de licenças, incluindo cópias de varejo e licenças OEM pré-instaladas em PCs novos. O mercado de PCs estava em crescimento acelerado em 1998-1999, com vendas globais de PCs passando de 90 milhões de unidades (1997) para 130 milhões (1999), e praticamente todos vinham com Windows 98.

Se foi um sucesso no mercado doméstico, a adoção corporativa já foi bem mais morna. Muitas empresas haviam acabado de migrar para Windows 95 ou Windows NT 4.0 e não viam justificativa para outra migração cara tão rapidamente. O ciclo de atualização corporativo típico era 3-5 anos, então empresas que migraram para Windows 95 em 1996-1997 só considerariam Windows 98 em 1999-2000, e nesse ponto muitas já estavam esperando pelo Windows 2000 (sucessor do NT) ou Windows XP (2001).

Em 5 de maio de 1999, menos de um ano após o lançamento original, a Microsoft lançou o Windows 98 Second Edition (SE). O Windows 98 SE não foi oferecido como atualização gratuita para usuários do Windows 98 original, gerando controvérsia. Usuários tinham que pagar US$ 89-109 pela atualização ou comprar um PC novo com Windows 98 SE pré-instalado.

O Windows 98 SE incluía melhorias significativas: Internet Explorer 5.0 (muito mais estável e rápido que o IE 4.0 do Windows 98 original), suporte a Internet Connection Sharing (ICS) permitindo compartilhar uma conexão de internet entre múltiplos PCs via rede, drivers USB aprimorados com melhor estabilidade e suporte a mais dispositivos, NetMeeting 3.0 para videoconferência (precursor do Skype/Zoom), suporte a DVD-ROM drives (o Windows 98 original não tinha), correções de centenas de bugs do Windows 98 original e melhor suporte a jogos DirectX. O Windows 98 SE rapidamente se tornou a versão preferida, e em 2000 praticamente todos os PCs novos vinham com Windows 98 SE ao invés do Windows 98 original. Vamos falar dessas versões mais para frente, neste post.

Market Share e Domínio de Mercado

O Windows 98 não foi apenas mais um sistema operacional: foi o ápice do domínio absoluto da Microsoft no mercado de desktops domésticos e corporativos. Entre 1998 e 2001, o Windows 98 consolidou a hegemonia da Microsoft de uma forma que nunca mais seria repetida na história da computação pessoal.

Entre 1993 e 2000, o mercado de sistemas operacionais desktop passou por uma transformação dramática. Em 1993, o Windows 3.x dominava com cerca de 80% do mercado, mas ainda competia com DOS puro, OS/2 da IBM e Mac OS da Apple. O lançamento do Windows 95 em agosto de 1995 mudou tudo: em apenas dois anos, o Windows 95 atingiu 65% de market share, estabelecendo a Microsoft como força dominante incontestável.

O Windows 98, lançado em junho de 1998, continuou essa trajetória de crescimento explosivo. Em 2000, o Windows 98 sozinho tinha 57% do mercado de desktops, e somando toda a família Windows (Windows 95 com 11%, Windows 98 com 57%, Windows NT com 8% e Windows ME começando a aparecer), a Microsoft controlava impressionantes 83% do mercado global de sistemas operacionais desktop. Esse nível de domínio era praticamente um monopólio e foi exatamente isso que levou aos processos antitruste nos Estados Unidos e na União Europeia.

Enquanto o Windows crescia exponencialmente, seus concorrentes eram sistematicamente deixados de lado. O Mac OS da Apple sofreu declínio brutal de 9% (1993) para apenas 3% (2000), refletindo a severa crise financeira que quase destruiu a empresa. A Apple estava à beira da falência, com produtos desatualizados (o Mac OS Classic tinha arquitetura dos anos 1980) e sem direção clara até o retorno de Steve Jobs em 1997 e o lançamento do iMac em 1998.

O OS/2 da IBM, apesar de tecnicamente superior ao Windows em estabilidade e arquitetura, despencou de 5% em 1994 para meros 0,5% em 2000. A IBM desistiu do OS/2, redirecionando investimentos para Linux e servidores. O OS/2 é um dos exemplos mais claros da história da tecnologia de como superioridade técnica não garante sucesso comercial: sem ecossistema de software, sem suporte de hardware e sem marketing efetivo, o OS/2 morreu lentamente.

O Linux cresceu de para 1,5% em 2000, mas esse crescimento era quase inteiramente em servidores, não em desktops domésticos. Em 2000, Linux desktop era inviável para usuários comuns: instalação complexa, interface gráfica primitiva (KDE e GNOME ainda eram muito imaturos), suporte de hardware terrível e praticamente zero software comercial. O Linux só se tornaria minimamente viável para desktops com Ubuntu em 2004, e mesmo assim nunca ultrapassaria 2-3% de market share.

O BeOS nunca passou de 0,1% de market share, permanecendo uma curiosidade técnica admirada por entusiastas mas comercialmente irrelevante. A Be Inc. faliu em 2001, vendida para a Palm por apenas US$ 11 milhões.

O domínio do Windows 98 não foi acidente ou sorte: foi resultado de estratégias deliberadas e vantagens estruturais que a Microsoft construiu ao longo dos anos 1990.

Primeiro, a pré-instalação universal: praticamente todo PC vendido no mundo vinha com Windows pré-instalado. Fabricantes como Dell, HP, Compaq, Gateway e centenas de outros tinham acordos com a Microsoft que tornavam o Windows essencialmente “gratuito” do ponto de vista do consumidor (o custo estava embutido no preço do PC). Competidores como OS/2, BeOS e Linux tinham que ser comprados e instalados separadamente, algo que 99% dos usuários nunca consideraria fazer.

Segundo, o ecossistema de software: em 2000, praticamente todo software comercial importante existia apenas para Windows. Microsoft Office dominava produtividade corporativa. Adobe Photoshop, Illustrator e Premiere dominavam design gráfico e edição de vídeo (versões Mac existiam, mas Windows tinha maioria dos usuários). AutoCAD dominava CAD. E principalmente os jogos: DirectX havia se tornado o padrão absoluto da indústria de jogos, com milhares de títulos exclusivos para Windows. Se você queria jogar PC games, precisava de Windows.

Terceiro, o suporte de hardware universal: drivers para Windows existiam para praticamente qualquer periférico fabricado. Impressoras, scanners, placas de vídeo, placas de som, modems, câmeras digitais, tudo tinha drivers Windows. Competidores como Linux e OS/2 tinham suporte de hardware limitado. Mesmo o Mac OS, com hardware controlado pela Apple, tinha menos opções de periféricos compatíveis.

Quarto, a familiaridade e curva de aprendizado: o Windows 98 era evolução do Windows 95, que era evolução do Windows 3.x. Milhões de usuários já conheciam a interface, os conceitos (desktop, janelas, menu Iniciar, barra de tarefas) e os aplicativos. Migrar para Mac OS, OS/2 ou Linux significava reaprender tudo do zero. Para empresas, isso significava custos massivos de treinamento. Para usuários domésticos, significava frustração e produtividade perdida.

Quinto, o efeito de rede: quanto mais pessoas usavam Windows, mais desenvolvedores criavam software para Windows, o que atraía mais usuários, criando um ciclo auto-reforçante impossível de quebrar. Esse efeito de rede é a razão pela qual monopólios em plataformas tecnológicas são tão difíceis de desafiar.

Em seu pico (2001-2002), o Windows 98 estava instalado em aproximadamente 400-500 milhões de computadores globalmente. Para contexto, a população mundial em 2000 era 6,1 bilhões, então aproximadamente 1 em cada 12-15 pessoas no planeta usava Windows 98. Nos Estados Unidos e Europa, a penetração era ainda maior: aproximadamente 1 em cada 3-4 pessoas tinha acesso a um computador com Windows 98.

Dados de market share estimados com base em relatórios históricos de IDC e Gartner. Medições precisas dos sistemas operacionais desktop só se tornaram padronizadas após 2000 com ferramentas de analytics web. Esses números devem ser interpretados como tendências do mercado.

A receita da divisão Windows da Microsoft em 2000 foi aproximadamente US$ 9 bilhões, representando cerca de 40% da receita total da empresa. O lucro operacional da divisão Windows era estimado em 85-90%, tornando-a uma das operações mais lucrativas da história corporativa. Para comparação, a Apple inteira teve receita de US$ 8 bilhões em 2000, menos que a divisão Windows sozinha.

Mas o domínio absoluto do Windows 98 teve algumas consequências negativas. Com 83% do mercado e concorrência praticamente inexistente, a Microsoft ficou complacente. O Internet Explorer 6, lançado em 2001, ficou sem atualizações significativas até 2006 (cinco anos!), acumulando vulnerabilidades de segurança e bugs. O Windows ME (2000) foi um desastre de qualidade, lançado apressadamente sem testes adequados. O desenvolvimento do Windows Vista (sucessor do XP) atrasou anos, com a Microsoft perdendo prazos repetidamente. Sem competição, a inovação estagnou.

Os processos antitruste nos EUA e Europa foram consequência direta desse domínio. O Departamento de Justiça dos EUA quase dividiu a Microsoft em duas empresas em 2000. A União Europeia multou a Microsoft em mais de €1 bilhão entre 2004 e 2013 por práticas anticompetitivas. Mas mesmo com multas bilionárias e restrições legais, o domínio do Windows permaneceu intacto até meados dos anos 2000.

O Windows 98 começou a declinar após o lançamento do Windows XP em outubro de 2001. O XP unificava as linhas consumer (95/98/ME) e corporativa (NT/2000) em um único sistema operacional baseado no kernel NT, oferecendo a estabilidade do NT com a compatibilidade de software e jogos do Windows 98. A migração foi gradual: em 2002, o Windows 98 ainda tinha 50%+ de market share, mas em 2004 o XP havia ultrapassado. O suporte da Microsoft para Windows 98 terminou em 30 de junho de 2002, e o suporte estendido terminou em 11 de julho de 2006. Após essa data, não haveria mais atualizações de segurança, tornando o Windows 98 oficialmente obsoleto e inseguro para uso conectado à internet.

O Windows 98 representa o pico do domínio de uma única empresa sobre uma plataforma tecnológica fundamental. Esse nível de controle nunca mais seria repetido: o iPhone (lançado em 2007) compete com Android, o Chrome compete com Firefox, Edge e Safari, o Windows hoje compete com macOS, Linux e ChromeOS. A era do monopólio absoluto de uma plataforma de computação terminou com o Windows 98.

Ironicamente, o sucesso absoluto do Windows 98 plantou as sementes da diversificação futura. A complacência da Microsoft com o IE 6 abriu espaço para Firefox (2004) e Chrome (2008). A estagnação do Windows Vista abriu espaço para o renascimento do Mac com o iPhone e iPad. O domínio do Windows desktop se tornou menos relevante quando a computação migrou para mobile, web e cloud. O Windows 98 foi o último grande monopólio da era PC, e sua história é tanto um triunfo de execução comercial quanto um aviso sobre os perigos da falta de competição.

As Versões do Windows 98

O Windows 98 foi lançado em duas versões principais durante seu ciclo de vida: o Windows 98 (First Edition) em junho de 1998 e o Windows 98 Second Edition (SE) em maio de 1999. Embora compartilhassem a mesma base e aparência visual, as diferenças técnicas entre as duas versões eram significativas o suficiente para que a Second Edition se tornasse a versão definitiva e preferida. Para ver as caixas de cada uma das verões do Windows 98, clique aqui para voltar para o início deste post.

Windows 98 First Edition (Junho de 1998)

O Windows 98 original foi lançado em 25 de junho de 1998 como sucessor direto do Windows 95. Esta primeira versão trouxe as inovações fundamentais que definiram o sistema: suporte nativo a FAT32 permitindo partições maiores que 2 GB, suporte a USB 1.1 com drivers integrados para dispositivos comuns, Internet Explorer 4.0 profundamente integrado ao sistema operacional, Active Desktop permitindo conteúdo web na área de trabalho, suporte a múltiplos monitores (até 9 displays simultâneos) e melhorias significativas no Plug and Play e ACPI.

No entanto, o Windows 98 First Edition tinha problemas conhecidos. A estabilidade era melhor que o Windows 95, mas BSOD ainda eram relativamente comuns, especialmente com drivers de hardware mal escritos. O suporte a USB, embora presente, era instável: muitos dispositivos USB não funcionavam corretamente ou causavam travamentos. O Internet Explorer 4.0 tinha bugs de segurança e estabilidade, e a integração forçada com o Windows era controversa (centro do processo antitruste). O sistema consumia mais recursos que o Windows 95, exigindo no mínimo 32 MB de RAM para rodar razoavelmente (o Windows 95 rodava com 16 MB). Havia problemas de compatibilidade com alguns jogos e aplicativos antigos que funcionavam perfeitamente no Windows 95.

Windows 98 Second Edition (Maio de 1999)

Menos de um ano após o lançamento original, em 5 de maio de 1999, a Microsoft lançou o Windows 98 Second Edition. Como já falamos antes, esta versão não foi oferecida como atualização gratuita, gerando controvérsia: usuários do Windows 98 original tinham que pagar US$ 89-109 pela atualização ou esperar comprar um PC novo com Windows 98 SE pré-instalado ou baixar uma versão pirata. A Microsoft justificou o custo alegando que o SE era mais que um service pack, incluindo funcionalidades novas significativas.

As melhorias do Windows 98 SE resolviam muitos dos problemas da versão original. O Internet Explorer 5.0 substituiu o IE 4.0, trazendo melhorias dramáticas de estabilidade, performance e segurança. O IE 5.0 era significativamente mais rápido, travava menos e tinha melhor suporte a padrões web.

O Internet Connection Sharing (ICS) foi uma adição revolucionária para a época: permitia que um PC com Windows 98 SE compartilhasse sua conexão de internet (geralmente dial-up) com outros computadores na rede local, eliminando a necessidade de roteadores caros. Isso foi crucial para famílias com múltiplos computadores e pequenas empresas.

Tela inicial para configuração do Internet Connection Sharing

Já falamos bastante sobre o USB aqui, neste post. Mas, resumidamente, o suporte a USB foi completamente reescrito, tornando-se muito mais estável e confiável. Dispositivos USB que causavam problemas no Windows 98 original funcionavam corretamente no SE. O suporte a DVD-ROM foi adicionado nativamente no SE, não precisando mais de software de terceiros. O NetMeeting 3.0 foi incluído, oferecendo videoconferência, compartilhamento de aplicativos e whiteboard colaborativo (precursor do Skype, Teams e Zoom).

Olá, eu sou o NetMeeting, tataravô do Zoom!

O DirectX 6.1 vinha integrado, melhorando significativamente a performance e compatibilidade de jogos.

Centenas de bugs do Windows 98 original foram corrigidos, incluindo memory leaks (vazamentos de memória que causavam lentidão após horas de uso), problemas com FAT32 em partições muito grandes, travamentos relacionados ao Active Desktop e problemas de compatibilidade com hardware específico. O gerenciamento de energia (ACPI) foi melhorado, com melhor suporte a standby e hibernação. O sistema de arquivos teve otimizações que melhoravam a performance de disco, especialmente em operações com muitos arquivos pequenos.

Diferenças Técnicas Detalhadas

Do ponto de vista técnico, ao contrário do que a Microsoft alegava, o Windows 98 SE era essencialmente o Windows 98 original com Service Pack integrado e algumas funcionalidades novas. A versão do kernel permaneceu 4.10.2222 (Windows 98 SE) vs 4.10.1998 (Windows 98 original), indicando que eram builds diferentes da mesma base de código. O tamanho da instalação cresceu: o Windows 98 original ocupava aproximadamente 195-225 MB instalado, enquanto o Windows 98 SE ocupava 250-295 MB devido ao IE 5.0 maior, drivers adicionais e componentes novos.

A compatibilidade de hardware melhorou significativamente. Muitas placas-mãe lançadas em 1999 tinham chipsets (Intel i810, VIA Apollo Pro 133+) que funcionavam mal ou não funcionavam no Windows 98 original, mas eram totalmente suportados no Windows 98 SE. O suporte a processadores também foi expandido: o Windows 98 SE tinha melhor suporte a processadores Intel Pentium III e AMD Athlon, que foram lançados em 1999.

Recepção e Adoção

A recepção do Windows 98 SE foi muito mais positiva que a versão original. Revistas de tecnologia como PC Magazine e PC World recomendavam fortemente a atualização, especialmente para usuários com problemas de estabilidade USB ou que queriam compartilhar conexão de internet. A controvérsia sobre o preço (não ser atualização gratuita) foi rapidamente esquecida quando usuários perceberam as melhorias reais de estabilidade e funcionalidade.

A adoção foi rápida: em 2000, praticamente todos os PCs novos vinham com Windows 98 SE ao invés do Windows 98 original. Fabricantes de PCs (Dell, HP, Compaq, Gateway) migraram completamente para o SE entre junho e setembro de 1999. Usuários corporativos que haviam evitado o Windows 98 original começaram a considerar o SE devido à estabilidade melhorada e ao Internet Connection Sharing, que reduzia custos de infraestrutura de rede.

Versões Regionais e OEM

Além das versões First Edition e Second Edition, existiram variações regionais e OEM do Windows 98. As versões OEM (pré-instaladas em PCs novos) eram tecnicamente idênticas às versões de varejo, mas vinculadas ao hardware específico e não podiam ser transferidas para outro computador. As versões regionais incluíam Windows 98 em dezenas de idiomas (português, espanhol, francês, alemão, japonês, chinês, etc.), cada uma com localização completa da interface, ajuda e corretor ortográfico.

Havia também versões especializadas como o Windows Plus! 98, um pacote de complementos vendido separadamente por US$ 49,95 que incluía temas visuais adicionais, jogos extras, ferramentas de compressão e utilitários de sistema. O Windows 98 Resource Kit era voltado para administradores de TI, incluindo ferramentas avançadas de diagnóstico, scripts de instalação automatizada e documentação técnica detalhada.

O Legado das Duas Versões

Hoje, quando falamos de “Windows 98”, geralmente nos referimos ao Windows 98 Second Edition, que se tornou a versão definitiva. A First Edition é largamente esquecida, lembrada principalmente por seus problemas de estabilidade USB e pela demonstração desastrosa de Bill Gates no lançamento (o Blue Screen durante a demo de Plug and Play). O Windows 98 SE, por outro lado, é lembrado com nostalgia como um sistema estável, rápido e compatível que definiu a experiência de computação doméstica no final dos anos 1990. 

Requisitos e Hardware da Época

O Windows 98 foi lançado em um momento de transição importante na história do hardware de PCs. Entre 1998 e 2001, o mercado de processadores estava em guerra aberta entre Intel e AMD, os preços de memória RAM despencaram, HDs cresciam exponencialmente em capacidade e tecnologias como AGP, USB e DVD-ROM se tornaram mainstream. 

Requisitos Oficiais da Microsoft

A Microsoft publicou requisitos mínimos e recomendados para o Windows 98 que, como sempre, eram otimistas demais. Na prática, os requisitos “mínimos” oficiais produziam uma experiência dolorosamente lenta, enquanto os requisitos “recomendados” eram o verdadeiro mínimo para uso produtivo.

  • Windows 98 First Edition (Junho 1998)
    • Requisitos Mínimos Oficiais:
        • Processador: Intel 486DX 66 MHz ou superior
        • RAM: 16 MB (24 MB recomendado)
        • Disco rígido: 195-315 MB de espaço livre (dependendo das opções de instalação)
        • Drive: CD-ROM ou DVD-ROM
        • Vídeo: VGA ou superior
        • Periféricos: Mouse ou dispositivo apontador compatível
    • Requisitos Recomendados Oficiais:
        • Processador: Intel Pentium 90 MHz ou superior
        • RAM: 24 MB
        • Disco rígido: 500 MB de espaço livre
        • Vídeo: SVGA (800×600, 256 cores)
  • Windows 98 Second Edition (Maio 1999)

Os requisitos oficiais permaneceram praticamente idênticos, mas o Windows 98 SE era ligeiramente mais pesado devido ao Internet Explorer 5.0 e componentes adicionais:

        • Processador: 486DX 66 MHz (mínimo), Pentium 90 MHz (recomendado)
        • RAM: 16 MB (mínimo), 24 MB (recomendado)
        • Disco rígido: 250-350 MB de espaço livre

Requisitos Realistas para Uso Produtivo

Na prática, os requisitos oficiais da Microsoft eram completamente inadequados para uso real. No mundo real, o hardware mínimo ou ideal dependia do uso e era mais parrudo.

    • Mínimo Aceitável (uso básico – navegação web leve, Office 97, e-mail)
        • Processador: Pentium 133 MHz
        • RAM: 32 MB
        • Disco rígido: 2 GB (FAT16) ou 4 GB+ (FAT32)
        • Vídeo: 2 MB VRAM, resolução 800×600
    • Ideal para Uso Doméstico (multitarefa leve, jogos casuais, multimídia)
        • Processador: Pentium II 233-300 MHz ou AMD K6-2 300 MHz
        • RAM: 64 MB
        • Disco rígido: 6-10 GB
        • Vídeo: 4-8 MB VRAM, resolução 1024×768
        • Placa de som: Sound Blaster compatível
    • Ideal para Jogos e Aplicações Pesadas (Photoshop, jogos 3D, edição de vídeo)

Processadores da Época (1998-2001)

O período do Windows 98 coincidiu com uma das eras mais competitivas e inovadoras da história dos processadores x86. A Intel dominava o mercado, mas a AMD estava crescendo rapidamente com produtos competitivos e mais baratos. A Intel dominava largamente, com cerca de 80% de market share. A AMD tinha quase o restante do mercado e outros fabricantes tinham menos de 5% (falando apenas dos mercado de processadores x86, ok?).

O Intel Pentium II (1997-1999) era o processador mainstream da Intel quando o Windows 98 foi lançado. Baseado na microarquitetura P6 (mesma do Pentium Pro), o Pentium II usava o controverso cartucho Slot 1 ao invés de socket tradicional, tinha cache L2 de 512 KB rodando a metade da velocidade do processador (diferente do Pentium Pro onde o cache era full-speed), e estava disponível em velocidades de 233 MHz a 450 MHz. O Pentium II era excelente para Windows 98, com performance sólida em aplicações de escritório, multitarefa e jogos. O preço em 1998 variava de US$ 200 (233 MHz) a US$ 600+ (400 MHz).

Pentium II com tecnologia MMX

O Intel Celeron (1998-presente) foi lançado em abril de 1998 como versão econômica do Pentium II para competir com processadores baratos da AMD e Cyrix. As primeiras versões (Covington, 266-300 MHz) não tinham cache L2, resultando em performance terrível, até 30% mais lenta que Pentium II equivalente. O Celeron Mendocino (agosto/1998) adicionou 128 KB de cache L2 on-die (integrado ao processador, rodando na velocidade total), tornando-se surpreendentemente competitivo e popular entre entusiastas para overclock. O Celeron 300A (300 MHz) ficou famoso pela possibilidade de fazer overclock para 450 MHz (FSB 66→100 MHz), oferecendo performance próxima ao Pentium II 450 MHz por uma fração do preço.

Celeron 300A

O Intel Pentium III (1999-2003) foi lançado em fevereiro de 1999, trazendo as instruções SSE (Streaming SIMD Extensions) para acelerar operações de ponto flutuante e multimídia, cache L2 on-die de 256 KB nas versões Coppermine (outubro 1999), com melhora significatia de performance, e velocidades de 450 MHz a 1,4 GHz ao longo do seu ciclo de vida. O Pentium III era o processador ideal para Windows 98 em 1999-2001, com excelente performance em jogos (especialmente com SSE), multitarefa suave e compatibilidade universal. O preço variava de US$ 300 (450 MHz) a US$ 1.000+ (1 GHz em 2000).

Pentium III “Coppermine” de 500 MHz

O Intel Pentium 4 (2000-2008) foi lançado em novembro de 2000, já no final da era Windows 98. Baseado na nova arquitetura NetBurst, o Pentium 4 focava em clock speeds altíssimos (1,3-3,8 GHz) ao invés de eficiência por clock. Ironicamente, o Pentium 4 inicial (Willamette, 1,3-2 GHz) era frequentemente mais lento que o Pentium III clock-por-clock em muitas aplicações, incluindo jogos. O Pentium 4 só se tornou realmente superior com a revisão Northwood (2002) e clock speeds acima de 2,4 GHz. Para Windows 98, o Pentium 4 era overkill e frequentemente desperdiçado, já que o Windows 98 não aproveitava bem as otimizações do P4.

Pentium 4 “Willamette” 1.5GHz

O AMD K6-2 (1998-1999) foi o processador AMD mainstream em 1998-1999. Baseado na arquitetura K6 com adição das instruções 3DNow! para acelerar gráficos 3D e multimídia (competindo com o SSE da Intel), o K6-2 usava Socket 7 (compatível com placas-mãe antigas, uma vantagem importante sobre o Slot 1 proprietário da Intel) e estava disponível em velocidades de 266 MHz a 550 MHz. O K6-2 oferecia excelente custo-benefício, custando 30-50% menos que Pentium II equivalente, mas tinha performance inferior em aplicações de inteiros e ponto flutuante. Era popular entre usuários conscientes de preço e entusiastas de overclock. O preço variava de US$ 80 (300 MHz) a US$ 200 (450 MHz).

Lembro perfeitamente deste processador. Na época eu estava na faculadade de Medicina e meus pais moravam no interior e tinham um PC com esse processador aí da foto!

AMD K6-2 “Chomper Extended (XT)” 533 MHz

O AMD K6-III (1999) foi lançado em fevereiro de 1999 como versão premium do K6-2, adicionando 256 KB de cache L2 on-die (transformando o cache L2 da placa-mãe em L3), resultando em performance significativamente melhor. O K6-III 400-450 MHz competia diretamente com Pentium II 450 MHz e Pentium III 450 MHz em muitas aplicações, mas custava menos. O problema era disponibilidade limitada e preço relativamente alto para padrões AMD. Foi um processador excelente mas de vida curta, rapidamente substituído pelo Athlon.

AMD K6-III+ 550 MHz

O AMD Athlon (1999-2005) foi lançado em junho de 1999 e mudou completamente o jogo. O Athlon (codinome K7) foi o primeiro processador AMD completamente novo desde o K5, com arquitetura superscalar de 9 estágios, barramento EV6 de 200 MHz (licenciado da Digital/Alpha), cache L2 externo de 512 KB rodando a velocidades variadas (1/2, 2/5, ou 1/3 do clock do processador), e velocidades iniciais de 500 MHz a 1 GHz. O Athlon era mais rápido que o Pentium III clock-por-clock em praticamente todas as aplicações, especialmente em ponto flutuante e jogos. O Athlon 1 GHz (lançado em março de 2000) foi o primeiro processador x86 a atingir 1 GHz, batendo a Intel por alguns meses. O preço era competitivo: US$ 300-500 para modelos de gama alta, significativamente mais barato que Pentium III equivalente.

AMD Athlon Classic

O AMD Duron (2000-2004) foi lançado em junho de 2000 como versão econômica do Athlon, competindo diretamente com o Celeron. O Duron era essencialmente um Athlon com cache L2 reduzido de 512 KB para 64 KB, mas ainda assim oferecia performance excelente devido à arquitetura K7 superior. O Duron 600-800 MHz frequentemente superava o Celeron e até Pentium III em aplicações específicas, custando US$ 100-150. Era extremamente popular entre entusiastas e gamers com orçamento limitado.

AMD Duron “Spitfire” 600 MHz

Outros Fabricantes (Nicho, <5% de market share):

A Cyrix/VIA produzia processadores econômicos como o Cyrix 6x86MX e VIA C3, focados em mercado de baixo custo e sistemas embarcados. Performance era significativamente inferior a Intel e AMD, mas preço era muito atrativo (US$ 50-100). A compatibilidade com Windows 98 era, mas alguns softwares e jogos tinham problemas.

Cyrix 6x86MX 75MHz

IDT/Centaur WinChip produzia processadores de baixíssimo consumo para notebooks e sistemas embarcados. A performance era fraca mas consumo de energia era excelente. Raramente usado em desktops com Windows 98.

IDT WinChip C6 240 MHz

Memória RAM

A era do Windows 98 coincidiu com uma queda dramática nos preços de memória RAM, tornando configurações com 64-128 MB acessíveis para usuários domésticos pela primeira vez.

Fonte: Dados históricos de preços de hardware compilados de múltiplas fontes (McCallum, Our World in Data, relatórios da indústria), ajustados pela inflação para USD 2025.

Essa queda de preços foi crucial para a adoção do Windows 98. Em 1998, a maioria dos PCs vendidos tinha 32 MB de RAM, o mínimo aceitável. Em 2000, 64-128 MB era padrão e em 2001, 128-256 MB era comum. O Windows 98 com 128 MB de RAM era uma experiência completamente diferente comparado a 32 MB: multitarefa suave, sem lentidão ao abrir múltiplos aplicativos, e jogos rodavam significativamente melhor.

A memória do tipo SDRAM (Synchronous DRAM) era o padrão entre 1998 e 2001, com módulos DIMM de 168 pinos. As variantes incluíam PC66 (66 MHz FSB), PC100 (100 MHz FSB, padrão em 1999), e PC133 (133 MHz FSB, padrão em 2000-2001). O Windows 98 funcionava perfeitamente com qualquer tipo de SDRAM.

SDRAM 64 MB  PC-100

O tipo RDRAM (Rambus DRAM) foi introduzido pela Intel em 1999 como substituto “premium” do SDRAM, usado inicialmente em sistemas Pentium III e Pentium 4. A RDRAM era tecnicamente superior (maior largura de banda), mas muito mais cara (2 a 3 vezes o preço de SDRAM) e exigia módulos em pares (RIMM). Foi um fracasso comercial e abandonado pela Intel em 2002.

RDRAM 128 MB PC-600

EDO RAM e FPM RAM eram tecnologias antigas (usadas em sistemas 486 e Pentium I) que ainda funcionavam com Windows 98, mas eram muito mais lentas que SDRAM. Sistemas com EDO RAM eram considerados obsoletos em 1998.

Discos Rígidos IDE

O Windows 98 foi lançado durante a transição de discos rígidos pequenos (2-4 GB) para discos grandes (10-40 GB), impulsionada pela queda de preços e aumento de capacidade. Já falamos aqui, no tópico sobre FAT32, sobre a queda brutal (cerca de 10 vezes) do preço dos HDs entre 1998 e 2001.

O padrão IDE/PATA (Parallel ATA) era o padrão absoluto, com cabos flat de 40 ou 80 vias. As velocidades evoluíram rapidamente: ATA-33 (33 MB/s) em 1998, ATA-66 (66 MB/s) em 1999, ATA-100 (100 MB/s) em 2000, e ATA-133 (133 MB/s) em 2001. O Windows 98 suportava todas essas velocidades com drivers apropriados.

Já o padrão SCSI (Small Computer System Interface) era usado em sistemas profissionais e servidores, oferecendo melhor performance e confiabilidade que IDE, mas custando 2-3× mais. O Windows 98 suportava SCSI, mas era raro em sistemas domésticos.

O Windows 98 First Edition tinha limite de 137 GB por partição devido a limitações do sistema de arquivos FAT32 e drivers IDE. Na prática, discos maiores que 80 GB eram raros em 2001, então isso não era problema significativo. O Windows 98 SE melhorou o suporte a discos grandes, mas o limite de 137 GB permaneceu (superado apenas no Windows XP com suporte a LBA de 48 bits).

Placas de Vídeo

O período entre 1998 a 2001 foi a era de ouro das placas de vídeo 3D. A competição entre 3dfx, NVIDIA, ATI e outros fabricantes resultou em avanços tecnológicos dramáticos e quedas de preço.

A 3dfx Voodoo2 (1998) era a placa 3D dominante, com 8-12 MB de memória, suporte a SLI (duas placas Voodoo2 em paralelo para dobrar performance), e compatibilidade universal com jogos da época. A Voodoo2 era add-on: você precisava de uma placa de vídeo 2D separada para Windows, e a Voodoo2 só ativava em jogos 3D. O preço era US$ 200-300.

A famosa 3dfx Voodoo2

A 3dfx Voodoo Banshee (1998) foi a primeira placa 3dfx all-in-one (2D+3D integrados), mas tinha performance 3D inferior à Voodoo2. Era popular por eliminar a necessidade de duas placas.

A NVIDIA RIVA TNT2 (1999) foi o primeiro desafiante sério da 3dfx, com 16-32 MB de memória, performance competitiva com Voodoo2 em muitos jogos, melhor qualidade de imagem (32-bit color vs 16-bit da Voodoo2), e design all-in-one (2D+3D). O preço era US$ 150-250.

NVIDIA RIVA TNT2

A 3dfx Voodoo3 (1999) foi a resposta da 3dfx, mas tinha limitações críticas: máximo de 16 MB de memória, sem suporte a 32-bit color (apenas 16-bit), e sem suporte a texturas maiores que 256×256. A Voodoo3 era rápida em jogos otimizados para Glide (API proprietária da 3dfx), mas estava ficando para trás tecnologicamente.

No começo dos anos 2000, a NVIDIA GeForce 256 (1999) e GeForce2 (2000) revolucionaram o mercado com a primeira GPU (Graphics Processing Unit) com T&L (Transform & Lighting) em hardware, eliminando carga da CPU. As placas tinham 32-64 MB de memória DDR, performance dramaticamente superior a qualquer concorrente, e suporte completo a DirectX 7. O GeForce2 GTS era a placa ideal para Windows 98 em 2000-2001, custando US$ 250-350.

NVIDIA GeForce2 Ultra

A ATI Radeon (2000) foi a resposta da ATI, com performance competitiva ao GeForce2 e melhor qualidade de imagem em algumas situações. O preço era similar (US$ 250-300).

A 3dfx faliu em 2000 após o fracasso da Voodoo4/5, sendo comprada pela NVIDIA. A era da 3dfx terminou, e a NVIDIA dominou o mercado de GPUs pelos próximos anos.

Placas de Som

A Creative Labs Sound Blaster era praticamente sinônimo de áudio para PC nesta época. A compatibilidade “Sound Blaster” era requisito para praticamente todos os jogos.

Sound Blaster AWE64 (1996-1998): Placa ISA com síntese wavetable de 64 vozes, suporte a MIDI de alta qualidade, e compatibilidade universal. Era o padrão em 1998, custando US$ 100-150.

Sound Blaster AWE64

Sound Blaster Live! (1998-2001): Primeira placa de som PCI mainstream, com processamento de áudio em hardware (chip EMU10K1), suporte a EAX (Environmental Audio Extensions) para áudio 3D posicional em jogos, e qualidade de áudio significativamente superior. A Sound Blaster Live! era a placa ideal para Windows 98, custando US$ 100-200 dependendo do modelo (Value, Standard, Platinum).

A Aureal Vortex (1998-2000) oferecia áudio 3D superior (A3D 2.0) ao EAX da Creative, mas tinha compatibilidade limitada. A Aureal faliu em 2000, comprada pela Creative.

As placas integradas (onboard) começaram a aparecer em 1999-2000, mas a qualidade era muito inferior a placas dedicadas. Entusiastas e gamers sempre preferiam Sound Blaster dedicada.

Placas-Mãe e Chipsets

A Intel era a dominante aqui, já que dominava o mercado de processadores. Saber o chipset da época ajuda a escolher sobre a emulação.

Veja que este o Machine Type do Proxmox é o chipset virtualizado que a VM vai enxergar para emular uma placa-mãe real. Assim, o Windows 98 virtualizado vai enxergar o chipset como compatível e carregará aos drivers corretos. Usar o q35, por exemplo, um chipset de 2007, pode causar problemas pois esse chipset é muito mais moderno e os drivers podem não funcionar corretamente.

O Intel 440BX (1998-2000) é um chipset clássico da era Pentium II/III. Suportava Pentium II/III (Slot 1 e Socket 370), até 1 GB de RAM SDRAM PC100/PC133, AGP 2× para placas de vídeo, e tinha estabilidade e compatibilidade excepcionais. O 440BX era o chipset ideal para Windows 98, usado em milhões de sistemas. Placas-mãe 440BX custavam US$ 100-200.

O chipset Intel 815 (2000) foi o sucessor do 440BX, com gráficos integrados (Intel i815), suporte a ATA-100, e melhor performance. Era popular em sistemas de baixo custo.

Os chipsets Intel 820/840 (1999-2000) eram “premium” e exigiam RDRAM caro. Foram fracassos comerciais devido ao custo muito elevado.

VIA Apollo Pro 133 (1999) era um chipset para Pentium II/III com suporte a FSB de 133 MHz, competindo com 440BX. Era popular em placas-mãe de terceiros (ASUS, MSI, Gigabyte).

Já o VIA KT133 (1999-2000) era o chipset padrão para AMD Athlon (Socket A), com suporte a SDRAM.

Configurações Típicas de Sistemas Windows 98

  • Sistema Econômico (1998-1999, US$ 800-1.000)
      • Processador: AMD K6-2 300 MHz ou Intel Celeron 300A
      • RAM: 32-64 MB SDRAM PC100
      • Disco: 4-6 GB IDE
      • Vídeo: ATI Rage Pro 8 MB ou NVIDIA RIVA 128 8 MB
      • Som: Sound Blaster AWE64 (ISA) ou onboard
      • Monitor: CRT 15″ (1024×768)
  • Sistema Mainstream (1999-2000, US$ 1.200-1.500)
      • Processador: Intel Pentium III 500-600 MHz ou AMD Athlon 600-700 MHz
      • RAM: 64-128 MB SDRAM PC133
      • Disco: 10-20 GB IDE ATA-66
      • Vídeo: NVIDIA GeForce 256 32 MB ou 3dfx Voodoo3 16 MB
      • Som: Sound Blaster Live! Value/Standard
      • Monitor: CRT 17″ (1280×1024)
  • Sistema Entusiasta/Gamer (2000-2001, US$ 2.000-2.500)
      • Processador: Intel Pentium III 1 GHz ou AMD Athlon 1,2 GHz
      • RAM: 256 MB SDRAM PC133 ou 128 MB RDRAM
      • Disco: 40-60 GB IDE ATA-100
      • Vídeo: NVIDIA GeForce2 GTS 64 MB ou ATI Radeon 64 MB DDR
      • Som: Sound Blaster Live! Platinum
      • Monitor: CRT 19″ ou 21″ (1600×1200)

Comparação com Requisitos de Sistemas Operacionais Concorrentes

Para contextualizar esses requisitos do Windows 98, é importante compará-los com seus concorrentes da época.

O Windows NT 4.0 (1996-2004) exigia processador Pentium 90 MHz no mínimo (133 MHz recomendado), 32 MB de RAM no mínimo (64 MB recomendado para uso produtivo) e 500 MB a 1 GB de disco rígido. O NT 4.0 era significativamente mais pesado que o Windows 98, mas oferecia estabilidade muito superior devido à arquitetura baseada em kernel NT. Para uso corporativo, o NT 4.0 era preferível ao Windows 98, mas exigia hardware mais robusto e tinha compatibilidade limitada com jogos e drivers de hardware padrão para consumidores em geral.

O Windows 2000 Professional (2000-2010), sucessor do NT 4.0 e competidor corporativo do Windows 98, elevou os requisitos para Pentium 133 MHz no mínimo (Pentium II 300 MHz recomendado), 64 MB de RAM no mínimo (128 MB recomendado) e 1-2 GB de disco. Era muito mais estável que o Windows 98, mas também mais pesado e com compatibilidade de jogos limitada até o lançamento do DirectX 8.

Já os concorrentes não-Windows tinham requisitos variados.

O Mac OS 8/9 (1997-2001) exigia processador PowerPC 603e 120 MHz no mínimo (PowerPC G3 233 MHz recomendado), 32 MB de RAM no mínimo (64 MB recomendado) e 500 MB a 1 GB de disco. Como discutimos anteriormente neste post, o Mac OS rodava em hardware PowerPC, uma arquitetura completamente diferente dos PCs x86, tornando a comparação direta de requisitos difícil, mas em termos de experiência do usuário, um iMac G3 com 64 MB de RAM oferecia performance similar a um PC Pentium II 300 MHz com 64 MB rodando Windows 98.

O OS/2 Warp 4 (1996-2001) tinha requisitos bem parecidos com os do Windows 98, pedindo 486DX 33 MHz no mínimo (Pentium 90 MHz recomendado), 32 MB de RAM no mínimo (64 MB recomendado) e 500 MB a 1 GB de disco. Apesar de oferecer melhor estabilidade e multitarefa que o Windows 98, como discutimos anteriormente aqui no post, a falta de suporte de hardware e software tornou o OS/2 comercialmente inviável.

O Linux (distribuições como Red Hat 6.0 e Debian 2.1 entre 1998-2000) tinha os requisitos mínimos mais baixos de todos: 486DX 66 MHz no mínimo (Pentium 133 MHz recomendado para desktop gráfico), 16 MB de RAM no mínimo (64 MB recomendado para KDE ou GNOME) e de 500 MB a 2 GB de disco. No entanto, para rodar ambientes gráficos de forma produtiva, os requisitos práticos eram similares ao Windows 98.

Finalmente, o BeOS R5 (2000) exigia Pentium 133 MHz no mínimo (Pentium II 266 MHz recomendado), 32 MB de RAM no mínimo (64 MB recomendado), e 500 MB de disco. O BeOS era surpreendentemente leve e rápido considerando suas capacidades multimídia avançadas: um sistema com Pentium II 300 MHz e 64 MB de RAM rodava BeOS significativamente mais rápido que Windows 98 equivalente. No entanto,  a falta de software e drivers tornou o BeOS irrelevante comercialmente.

Periféricos e Expansões Comuns

Além desses componentes principais, existiram vários periféricos que hoje consideramos básicos, mas que na época eram opcionais ou novidades.

  • Modems (Dial-up)

Em 1998-2001, a internet discada (dial-up) era o padrão absoluto para acesso doméstico à internet. Modems 56K (V.90 ou V.92) eram essenciais, custando US$ 50-100. Modelos populares incluíam US Robotics 56K, 3Com/USR Sportster, e modems genéricos baseados em chipsets Conexant ou Lucent. Modems internos (ISA ou PCI) eram mais baratos (US$ 30-50), mas modems externos (serial ou USB) eram preferidos por entusiastas devido à facilidade de reset e diagnóstico.

  • Banda Larga

Cable modems e DSL começaram a aparecer em 1999-2000, mas eram caros (US$ 40-60/mês vs US$ 20/mês para dial-up) e disponibilidade era limitada a grandes cidades. A adoção de banda larga só se tornou mainstream após 2002-2003. Para Windows 98, banda larga exigia placas de rede Ethernet 10/100 (US$ 20-40), que eram raras em PCs domésticos antes de 2000.

Motorola Cable Modem SB5100 e SB5101, do início dos anos 2000
  • Drives de CD-ROM e CD-RW

Drives de CD-ROM eram padrão em 1998, com velocidades de 24× a 52× (3,6-7,8 MB/s), custando entre US$ 40-80. Gravadores de CD (CD-R/CD-RW) se tornaram acessíveis em 1999-2000, caindo de US$ 300-500 (1998) para US$ 150-200 (2000). A capacidade padrão era 650 MB (74 minutos) ou 700 MB (80 minutos). Mídias CD-R custavam US$ 1-2 por disco em 1999, caindo para US$ 0,50-1 em 2001.

  • Drives de DVD-ROM

Já os drives de DVD-ROM começaram a aparecer em 1998-1999, mas eram caros (US$ 200-300) e software de reprodução era limitado. O Windows 98 original não tinha suporte nativo a DVD, exigindo software de terceiros como WinDVD ou PowerDVD. O Windows 98 SE adicionou suporte básico a DVD-ROM. Em 2000-2001, drives de DVD-ROM se tornaram padrão em PCs de gama média e alta, custando US$ 80-120.

  • Impressoras

Impressoras já eram equipamentos antigos, mas eram, inicialmente, matriciais. As impressoras jato de tinta dominavam o mercado doméstico, com modelos populares incluindo HP DeskJet (US$ 150-300), Epson Stylus (US$ 200-400), e Canon BJC (US$ 150-250). Impressoras laser eram usadas em ambientes corporativos, custando US$ 500-1.500 para modelos monocromáticos. O Windows 98 tinha excelente suporte a impressoras, com drivers incluídos para centenas de modelos.

  • Scanners

Scanners flatbed se tornaram acessíveis em 1998-2000, caindo de US$ 300-500 para US$ 100-200. Modelos populares incluíam HP ScanJet, Epson Perfection, e UMAX Astra. A interface evoluiu de SCSI (cara e complexa) para USB (simples e barata), com o Windows 98 oferecendo suporte nativo via WIA (Windows Image Acquisition).

Scanner “flatbed” ou Scanner de mesa. Era esse trambolho aí.

 

  • Webcams

Webcams USB eram novidade em 1999-2000, com modelos como Logitech QuickCam (US$ 100-150) oferecendo resolução de 320×240 ou 640×480 para videoconferência via NetMeeting ou ICQ. A qualidade era terrível comparada aos padrões atuais, mas era revolucionária na época.

Joysticks e Gamepads

Para jogos, joysticks e gamepads eram essenciais. Modelos populares incluíam Microsoft SideWinder (US$ 30-80), Logitech WingMan (US$ 25-60), e Gravis GamePad (US$ 20-40). A interface evoluiu de game port (analógico, conectado à placa de som) para USB (digital, melhor precisão).

Microsoft Sidewinder Force Feedback Pro
 

A evolução do hardware foi impressionante nesta época. Em apenas 4 anos (1998 a 2002), a performance dos processadores aumentou 10 vezes, a da RAM aumentou 8 vezes, a dos discos aumentou 15 vezes e a das placas de vídeo aumentou 5 vezes. Enquanto isso, o preço total de um PC caiu cerca de 30%!

Aqui no Brasil, aliado com o fim da Reserva de Mercado em 1992 (tem uma turma saudosista que até hoje quer uma reservinha de mercado para chamar de sua – reserva para carros, para filmes, para roupas, etc, sempre com a mesma desculpa genérica e oportuna de “proteger a indústria nacional”), houve a estabilização monetária com a criação do Real. No final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000, foi uma época de acelerada incorporação de tecnologia no Brasil e, no mundo, uma das eras mais dinâmicas da história do hardware de PCs.

O Legado do Windows 98

O Windows 98 não foi apenas mais um sistema operacional na linha evolutiva da Microsoft: foi o último representante de uma era inteira da computação pessoal. Lançado em 1998 e oficialmente descontinuado em 2006, ele marcou o fim da arquitetura MS-DOS/Windows 9x que havia dominado os PCs domésticos desde 1981. Seu legado vai muito além de suas funcionalidades técnicas, representando um momento único na história da tecnologia onde a computação pessoal e a internet se fundiram definitivamente.

O último sistema MS-DOS

O Windows 98 foi o último sistema operacional baseado em MS-DOS. Embora o Windows ME (Millennium Edition, lançado em 2000) tecnicamente tenha sucedido o Windows 98, foi um fracasso comercial e foi rapidamente esquecido (menos por mim, que usei bastante e farei um post sobre ele em breve). O Windows XP (2001) marcou a transição definitiva para a arquitetura NT, encerrando de vez a era DOS. O DOS havia sido a base da computação pessoal por 20 anos, mas suas limitações arquiteturais (modo real de 16 bits, memória convencional de 640 KB, multitarefa cooperativa instável) tornaram-se insustentáveis na era da internet e do hardware moderno.

O Windows 98 representou o ápice do que era possível fazer com a arquitetura DOS. A Microsoft conseguiu empilhar camadas de código de 32 bits sobre o kernel de 16 bits do DOS, criar um sistema de memória virtual funcional, implementar multitarefa preemptiva razoável e adicionar suporte a hardware moderno (USB, AGP, ACPI). Foi uma façanha de engenharia impressionante, mas também revelou os limites fundamentais dessa abordagem. Os infames BSOD, travamentos aleatórios e a necessidade de reiniciar o sistema regularmente eram sintomas de uma arquitetura que havia sido esticada além de seus limites originais.

A Consolidação da Internet Doméstica

Se o Windows 95 introduziu a internet ao usuário comum, o Windows 98 a consolidou como parte essencial da computação moderna. A integração profunda do Internet Explorer 4.0 (e posteriormente IE 5.0 no Windows 98 SE) transformou o navegador de uma aplicação opcional em componente fundamental para sistema operacional e para o usuário. Essa integração foi controversa e resultou em processos antitruste que moldaram a indústria de tecnologia pelos próximos 20 anos, mas também estabeleceu o paradigma de que sistemas operacionais modernos devem ter capacidades web nativas.

O Windows 98 popularizou conceitos que hoje são básicos: navegar na web como atividade cotidiana, e-mail como meio de comunicação principal, downloads de arquivos e software e a ideia de que computadores devem estar “sempre conectados”. Para milhões de usuários globalmente (e especialmente no Brasil, onde a internet discada explodiu entre 1998-2002), o Windows 98 era a internet. A experiência de conectar via modem 56K, ouvir os sons característicos da negociação do handshake, esperar pacientemente páginas carregarem linha por linha e desconectar para liberar a linha telefônica define a memória de uma geração inteira de usuários.

No Brasil especificamente, o Windows 98 coincidiu perfeitamente com a democratização da internet. Provedores como UOL, Terra, iG e BOL cresceram explosivamente entre 1998 e 2002, oferecendo acesso discado para milhões de brasileiros. O Windows 98 com Internet Explorer 5.0 era a plataforma padrão para acessar portais brasileiros, salas de chat do mIRC e ICQ, e os primeiros serviços de e-mail web como Hotmail e Yahoo! Mail. Para uma geração de brasileiros, aprender a usar computadores significava aprender Windows 98 e navegar na internet significava usar o IE 5.0 em conexão discada de 33,6 ou 56 kbps.

A Era de Ouro dos Jogos para PC

O Windows 98 foi lançado durante o que muitos consideram a era de ouro dos jogos para PC. Entre 1998 e 2002, alguns dos jogos mais influentes e memoráveis da história foram lançados, e praticamente todos foram otimizados para Windows 98 com DirectX. Títulos como Half-Life (1998), StarCraft (1998), Age of Empires II (1999), Counter-Strike (1999-2000), The Sims (2000), Diablo II (2000), Baldur’s Gate II (2000), Deus Ex (2000), Max Payne (2001), e Grand Theft Auto III (2001) definiram gêneros inteiros e estabeleceram mecânicas de gameplay que influenciam jogos até hoje.

O DirectX, especialmente as versões 6, 7 e 8 que dominaram a era Windows 98, estabeleceu-se como API padrão absoluta para jogos em PC. A competição entre fabricantes de placas de vídeo (3dfx, NVIDIA, ATI) resultou em avanços tecnológicos dramáticos: de gráficos 2D e 3D primitivos em 1998 para ambientes 3D complexos com iluminação dinâmica, shaders programáveis e física realista em 2002. O Windows 98 foi a plataforma onde essa revolução aconteceu e jogadores que viveram essa era testemunharam saltos visuais impressionantes!

A cultura de LAN parties também floresceu durante a era Windows 98. Antes da banda larga e do jogo online, entusiastas carregavam seus PCs pesados para casas de amigos (já fiz isso demais!!!!) ou iam em Lan Houses para jogar Counter-Strike, Quake III Arena, Unreal Tournament e Age of Empires II em rede local. O Internet Connection Sharing do Windows 98 SE foi crucial para essas LAN parties, permitindo que um PC compartilhasse uma conexão discada (ou as raras conexões de banda larga) com toda a rede. Essas experiências sociais de jogo coletivo presencial criaram memórias e amizades que duraram décadas.

A Universalização do PC Doméstico

O Windows 98 foi lançado durante o período de maior crescimento da indústria de PCs. Entre 1998 e 2002, o preço de computadores domésticos caiu absurdamente enquanto a performance aumentava exponencialmente. A lei de Moore estava a toda nessa época!

Fonte: Wikipedia

PCs que custavam US$ 2.000-3.000 em 1998 foram substituídos por máquinas muito mais poderosas custando US$ 800-1.200 em 2002. Essa queda de preços, combinada com a popularização da internet, resultou em penetração massiva de PCs em lares ao redor do mundo.

ISSO SIM É DEMOCRATIZAR! O livre mercado transformou, em poucas décadas, algo que era restrito a laboratórios universitários e órgãos governamentais em tecnologia barata e acessível ao cidadão comum!

O Windows 98 foi o sistema operacional que milhões de pessoas usaram para seu primeiro contato com computadores. Escolas, bibliotecas, cybercafés e programas governamentais de inclusão digital frequentemente usavam Windows 98 devido ao custo relativamente baixo (especialmente em versões OEM pré-instaladas) e compatibilidade universal com software educacional e de produtividade. P

O Fim de Uma Era e a Transição para o NT

O lançamento do Windows XP em outubro de 2001 marcou o início do fim para o Windows 98. O XP unificou as linhas consumer (95/98/ME) e profissional (NT/2000) em um único sistema operacional baseado no kernel NT, oferecendo a estabilidade e segurança do NT com a compatibilidade de software e jogos do Windows 98. A transição foi gradual: em 2002, o Windows 98 ainda dominava com mais de 50% de market share, mas em 2004 o XP havia ultrapassado definitivamente.

O fim do suporte oficial em 11 de julho de 2006 encerrou simbolicamente a era DOS/Windows 9x. Após essa data, não haveria mais atualizações de segurança, tornando o Windows 98 oficialmente obsoleto e inseguro para uso conectado à internet. No entanto, o sistema continuou sendo usado em ambientes específicos por muitos anos: sistemas industriais e embarcados, caixas eletrônicos, terminais de ponto de venda, e máquinas especializadas frequentemente rodavam Windows 98 até meados dos anos 2010 devido à estabilidade conhecida e compatibilidade com hardware legado.

Vejam só que interessante: em 2022 os engenheiros da ESA (Agência Espacial Europeia) atualizaram um dos equipamentos da sonda Mars Express que foi lançada em 2003. Este equipamento, o MARSIS (Mars Advanced Radar for Subsuface and Ionospheric Sounding) rodava um software baseado no nosso coleguinha de hoje, o Windows 98! Eles precisaram instalar o Windows 98 em uma VM (VirtualBox) e configurar, durante 2 meses, o ambiente para preparar a atualização do sistema! Detalhe pequeno: a Mars Express está a mais de 60 milhões de quilómetros daqui! Esse MARSIS é um dos responsáveis por achar sinais de água líquida em Marte!! Fonte: ESASlashGear e TecnoblogNunca se sabe quando o conhecimento de uma “retrotecnologia” será útil, não é mesmo?

Mars Express

A transição do Windows 98 para o XP representaria mais que uma simples atualização de sistema operacional: era uma mudança fundamental de paradigma. O kernel NT traria memória protegida (aplicações não podiam travar o sistema inteiro), multitarefa preemptiva real, sistema de arquivos NTFS com journaling e segurança, suporte nativo a múltiplos processadores e arquitetura de 64 bits (posteriormente). Os BSOD seriam mais e mais raros. A necessidade de reiniciar o sistema regularmente diminuiria drasticamente. O Windows finalmente se tornaria um sistema operacional “sério” que podia competir com Unix e Linux em estabilidade.

Influência na Indústria e Processos Antitruste

O Windows 98 foi central nos processos antitruste mais importantes da história da tecnologia. O caso United States v. Microsoft Corp. (1998-2001) focou na integração forçada do Internet Explorer ao Windows 98, argumentando que a Microsoft usava seu monopólio em sistemas operacionais para eliminar competição no mercado de navegadores (especificamente, o Netscape Navigator). O julgamento quase resultou na divisão da Microsoft em duas empresas separadas (uma para sistemas operacionais, outra para aplicações), mas um acordo em 2001 evitou essa medida extrema.

Os processos antitruste tiveram consequências duradouras para a indústria de tecnologia. A Microsoft tornou-se mais cautelosa em suas práticas comerciais, abrindo espaço para competidores como Google (fundada em 1998), Mozilla Firefox (2004), e posteriormente Chrome (2008). A União Europeia impôs multas bilionárias e exigiu que a Microsoft oferecesse versões do Windows sem Media Player (versões “N”) e posteriormente sem Internet Explorer, estabelecendo precedentes regulatórios que afetam empresas de tecnologia até hoje. O conceito de “plataformas dominantes” e responsabilidades antitruste de empresas de tecnologia, debatido intensamente hoje no contexto de Google, Apple, Amazon e Facebook, tem raízes diretas nos processos contra a Microsoft nos anos 1990-2000.

Legado Técnico e Arquitetural

Do ponto de vista técnico, o Windows 98 estabeleceu padrões e convenções que persistem até hoje. A interface gráfica com menu Iniciar, barra de tarefas, área de notificação (system tray), e conceito de desktop com ícones foi refinada no Windows 98 e permanece fundamentalmente inalterada no Windows 11 (a Microsoft até tentou tirar o menu Iniciar no Windows 8, mas deu tão errado que voltou atrás). O Windows Explorer com visualização de árvore de pastas, painel de detalhes, e integração com rede definiu como usuários navegam em sistemas de arquivos por décadas.

O modelo de drivers do Windows 98 (WDM – Windows Driver Model) estabeleceu a base para o modelo de drivers do Windows XP e versões posteriores. O Plug and Play, apesar de seus problemas iniciais, tornou-se padrão universal.

O suporte a FAT32 introduzido no Windows 98 permanece relevante hoje: cartões SD, pen drives USB, e discos externos frequentemente usam FAT32 para compatibilidade universal entre Windows, macOS, Linux, e dispositivos embarcados (apesar que agora esta sendo trocado, lentamente, pelo exFAT. O limite de 4 GB por arquivo do FAT32 é uma limitação conhecida que remonta diretamente às decisões de design do Windows 98.

Lições para o Futuro

O Windows 98 ensinou lições importantes sobre tecnologia e indústria que permanecem relevantes.

Primeiro, domínio de mercado não é permanente: a Microsoft parecia invencível em 2000 com 83% de market share, mas a ascensão de smartphones (iOS e Android), computação em nuvem, e web apps reduziu drasticamente a relevância do Windows. Hoje, o Windows tem menos de 30% de market share global quando incluímos smartphones e tablets, e a Microsoft é primariamente uma empresa de cloud computing (Azure) e produtividade (Office 365), não de sistemas operacionais.

Segundo, integração vertical tem limites: a estratégia da Microsoft de integrar tudo (navegador, media player, messenger) no sistema operacional funcionou no curto prazo mas resultou em processos antitruste, fragmentação de código, e dificuldade de inovação. Sistemas modernos tendem a ser mais modulares, com componentes substituíveis e APIs abertas. O sucesso de plataformas como iOS e Android vem parcialmente de ecossistemas de apps de terceiros, não de integração forçada.

Terceiro, compatibilidade retroativa tem custos: a obsessão da Microsoft em manter compatibilidade com software DOS e Windows 3.x resultou em arquitetura complexa, instável e cheia de gambiarras técnicas. O Windows XP finalmente quebrou essa compatibilidade (parcialmente), resultando em sistema muito mais estável. Empresas de tecnologia hoje são mais dispostas a fazer “clean breaks” quando necessário (Apple abandonando processadores Motorola 68k, PowerPC e Intel e Google descontinuando APIs antigas do Android).

Quarto, experiência do usuário supera especificações técnicas: o BeOS era tecnicamente superior ao Windows 98 em praticamente todos os aspectos, mas falhou comercialmente. O OS/2 era mais estável e tinha melhor multitarefa, mas foi ignorado pelo mercado. O Windows 98 venceu não por ser o melhor tecnicamente, mas por ter o melhor ecossistema: software universal, hardware compatível, familiaridade de usuários e efeito de rede. Essa lição se repete constantemente na indústria de tecnologia.

O Legado

O Windows 98 foi o último sistema operacional de uma era mais simples da computação, antes de smartphones, redes sociais, streaming, e computação em nuvem. Foi o ápice da era PC, quando computadores pessoais eram o centro da vida digital. E foi o sistema que trouxe a internet para centenas de milhões de pessoas globalmente, mudando permanentemente como nos comunicamos, trabalhamos, aprendemos e nos divertimos.

Esse é o verdadeiro legado do Windows 98: não suas funcionalidades técnicas específicas, mas seu papel como ponte entre a era pré-internet e o mundo hiperconectado de hoje.

Instalando o Windows 98 no Virtual Box

Vamos agora para a parte que todos querem! Instalar o Windows 98, configurar vídeo, som e rede e instalar o Windows Plus! 98 e o que mais a gente achar!

Vou usar a versão Windows 98 SE OEM Full (aqui), pois essa versão NÃO precisa de disco de boot! Processador equivalente a Pentium III, 256 MB de RAM e 2 GB de HD tá de ótimo tamanho! No final, a gente instala o Microsoft Plus! 98 (aqui).

No VirtualBox, é preciso ajustar algumas coisas: RAM inferior a 512MB (limitação do Windows 98), chipset PIIX3, mouse PS/2, desabilitar o I/O APIC (controlador de interrupções de hardware mais moderno; o Windows 98 foi projetado para usar o PIC, mais antigo), UEFI e HABILTAR o PAE/NX (PAE é uma extensão e hardware para acessar mais que 4GB de RAM e o NX é uma funcionalidade de segurança para evitar que programas sejam executados em áreas de dados, o famoso buffer overflow;  ambas não existiam na época dos Windows 9.x, mas a ativação melhora a compatibilidade da virtualização). Além disso, a memória de vídeo deve ser de uns 128MB (para melhorar o processamento), o suporte 3D deve desabilitado e a controladora gráfica recomendada é a VBoxVGA. É fundamental usar controladora IDE, usar controladora de som SoundBlaster 16 (a IntelHD Audio costuma ser incompatível) e usar a placa de rede AMD PCNet-FAST III.

Pra começar a instalação, coloque o CD no drive e inicie a VM. A primeira coisa a fazer é ativar a partição e depois f0rmatar o HD para só então instalar o Windows.

Escolha o boot a partir do CD-ROM porque o HD ainda está vazio

Aqui nós vamos escolher iniciar o PC em DOS com suporte a CD-ROM (opção 2). Se a gente for direto pra iniciar com o Windows 98 (opção 1) , ele vai pedir o disco para ir para o DOS para particionar e formatar o HD. O Virtual Box e o VMWare oferecem suporte a disquete, mas o Proxmox não. Apesar de usar o Virtual Box agora, essa mesma estratégia é a que usaremos para instalar no Proxmox daqui a pouco.

A VM começando…

Ao entrar no DOS, vamos para o FDISK. Ele vai perguntar se desejamos usar suporte a discos grandes (responda Y para sim).

Antes de começar a instalação, vamos ver o que tem disponível sobre as partições. 

Veja que já temos uma partição primária presente  (2GB), mas ainda não formatada (System UNKNOWN). Imagino que esta partição deve ter sido criada pelo fdisk quando escolher usar o suporte a discos maiores.

Voltando para o menu principal, vamos escolher essa partição “1” para ser a partição ativa.

Pronto. A partição 1 é a partição ativa. Agora a gente reinicia a VM para formatar essa partição.

Aqui já podemos começar o Windows 98 partir do CD.

Ele começa a formatar sozinho…

E agora entramos no instalador do Windows 98! \o/

Sim, C:\WINDOWS!

Agora que ele já terminou de copiar, vai reiniciar.

Agora vamos bootar pelo HD!

Sim, concordo com tudo!

O serial é bem fácil de achar na internet.

Agora ele vai procurar os hardwares usando o P&P! Vai reiniciar e a gente boota pelo HD novamente.

Mais um pouco de configuração… e mais uma reinicialização depois.

Pode deixar a senha em branco se quiser.

Pronto! Windows 98 SE instalado. Muito, muito fácil! O som já até veio (veja a caixinha de som no canto inferior esquerdo!).

Lembram daqueles erros de P&P no inicio do Windows 95? Ou que tivemos que instalar um programa para fazer o Windows 95 aceitar o processador mais moderno? Pois é, nada disso por aqui!  \o/

Agora tem aquele macete pra agilizar instalações: copiar tudo o conteúdo do CD para o HD.

Feito isso, vamos aumentar o tamanho do monitor e configurar o display! No Virtual Box, o jeito mais simples de arrumar isso é usando o Guest Additions Tools. Mas antes de ir por esse caminho, o mais fácil, vamos ver no Device Manager:

Veja, apareceu algo aqui que o Windows 98 não conseguiu instalar. Clicando duas vezes sobre o periférico, abre isso aqui:

O driver não foi instalado.

Esse range de memória (F040000 – F07FFFFF – 4 MB – mais F0800000 – F003FFF – 16KB), situados na região alta de memória (acima de 3 GB no espaço de endereçamento de 32 bits), é tipico para os dispositivos PCI mapeados em memória. Pode ser para dispositivos de rede, mas o adaptor de rede foi devidamente configurado e está até pingando. Então tem chance de ser do adaptador de vídeo (que não apareceu erro mas está com configuração restrita).

Para entrar na IE, primeiro vá em Start -> Control Panel -> Internet Options -> Connections -> Setup e marque “I want to set up my Internet Connection manually, or I want to connect through a local area network (LAN)“. Dê um Next -> “I connect through a local area network (LAN)” -> Next -> Automatic discovery of proxy server (recommended) -> Next -> No (não vamos configurar contas de internet) -> Finish.

Agora é só escolher um site que ainda funcione com http apenas:

Já temos som e rede, falta resolver o PCI que não foi identificado e arrumar a resolução da tela. 

Para começar, vamos achar um driver compatível. O VBEMP (VESA BIOS Extensions Mini-Port Driver) é um driver de vídeo universal para Windows 95/98/ME. Já falei do VBEMP aqui, quando fizemos a instalação do Windows NT 4 no Proxmox. Baixei ele no repositório oficial e atualizado deles (aqui). Lá, vá em releases e baixe um driver para Windows 98 2D (não estamos usando placas 3D). No momento em que faço este post, a versão mais atualizada é esta aqui: vmdisp9x-1.2025.0.119b-driver-2d.zip. Após descompactar este arquivo, precisamos criar um ISO dele. Extraí para a pasta vmdisp9x dentro de Downloads para facilitar a digitação.

No Terminal do Mac, vá até a pasta Downloads e dê o seguinte comando:

hdiutil makehybrid -o vmdisp9x.iso -iso -joliet -default-volume-name VBEMP vmdisp9x/

Vai ser criado o arquivo  vmdisp9x.iso.

Agora, novamente no Windows 98, vá em My Computer -> CD-ROM e copie o conteúdo da pasta para o HD (para C:\VMDISP9X).

Clicando com botão direito em Start -> Settings -> Panel Control -> Display -> Settings -> Advanced -> Adapter -> Change… -> Next -> Display a list of all drivers -> Show all hardware -> Have Disk… -> Browse e vá até a a pasta C:\VMDISP9X (para onde copiamos os arquivos do VBEMP). O Windows encontrou o arquivo vmdisp9x.inf que é o driver que a gente precisa. Dê OK para continuar a instalação do driver. Agora o Windows mostra dois drivers compatíveis no sistema: o VBox VGA PCI Adapter  (o que a gente está usando agora) e o VESA PCI Adapter (o que a gente quer instalar). Selecione este último, dê OK e siga as instruções. Se o Windows pedir um arquivo e não conseguir achar na pasta C:\VMDISP9X, indique o CD que criamos para completar a instalação.

O Windows sempre gosta de pregar peças na gente… Ele é um fanfarrão.

Assim que instalei tudo, reiniciei a VM e… travou geral. Resetei, entrei no Windows pelo Safe Mode e desistalei o driver do vídeo. Assim que reiniciei, ele achou o adaptador antigo, pediu o disco com os drivers novos e… entrou bonitinho com True Colors (32 bit) e 1024×768 (aceita até  1920×1200, um pouco mais que o Full HD!). Vai entender!

Pegamos IP, resolvemos nomes e a Internet está funcionando. O som funciona e o temos resolução e cores funcionando perfeitamente!

Agora podemos instalar o Plus! 98 (baixe aqui). Assim como no Windows 98 SE, o serial do Plus! 98 é facilmente encontrado na internet. Também baixe o IE 6 (aqui, a última build – 6.00.2800.1106). Dá pra ter bastante diversão e nostalgia com isso! Agora vamos para a segunda parte da instalação!

Instalando o Windows 98 no Proxmox

Bom, acho que não tem sentido colocar os prints de todas as etapas da instalação, só o que for diferente, né?

Antes de qualquer coisa, mande as ISOs para ao Proxmox. Depois, temos que fazer algumas configurações específicas na VM para o Windows 98 rodar no Proxmox:

  • OS: deixei como Windows 2000; coloque a ISO “OEM Full” porque não precisará de disquete para bootar.
  • System: deixei tudo como default: Grafic Card, SCSI Controller (LSI 53C895A), Machine (i440fx) e BIOS (SeaBIOS). Depois vamos mudar o chipset para um mais antigo (pc-i440fx-2.11 ou 2.12). Esses mais novos devem ser usados para sistemas mais recentes (por exemplo: 4.2 a 5.2 para Windows 2000 e XP; 6.2 ou mais novo para Windows 7/8/10; q35 para Windows 11 porque requer UEFI e TPM).
  • Disks: o Bus/Device DEVE ser IDE e vou deixar 2GB de HD; em Cache, deixe Write Back, para melhor performance.
  • CPU: Apenas um socket e 1 core, já que o Windows 98 não aproveita múltiplos cores. Eu escolhi usar o Pentium III, mas o Pentium II ou Pentium podem funcionar bem também. Usar kvm64 ou host podem até funcionar, mas como o processador do PC onde roda o Proxmox é um Ryzen 7, acho melhor emular um processador da época (tem relatos que o Windows 98 não roda legal em PCs com AMD mais modernos). A performance pode ser um pouco pior, mas o gargalo é o Windows 98, não o processador.
  • Memory: deixe 256MB (não coloque 512MB ou mais); deixe Balloning Device desabilitado.
  • Network: Bridge em vmbr0 (ou sua bridge padrão) e Model Realtek RTL8139 (se você tiver, no seu Proxmox, a opção AMD PCNET32, pode deixar porque também funcionará). As outras controladoras de rede não funcionam (Intel E1000 ou E1000E, VirtIO e VMware vmxnet3).
  • USB Device: ativei o USB spice (todos os outros fazem passthrough) e desativei o USB3.

No final deve ficar assim:

Ao começar a VM, faremos as mesmas escolhas que fizemos quanto instalamos o Windows 98 no Virtual Box.

De cara, o fdisk aqui não criou a partição como criou no Virtual Box. Então é só clicar em 1 (Create DOS partition) e ele vai criar e perguntar se quer tornar esta partição como ativa (fizemos isso manualmente usando a opção 2, já que o fdisk tinha criado a partição primária). Pronto. Agora é só reiniciar, botar pelo CD-ROM e seguir em frente (para bootar pelo CD, a opção ide2 tem que estar na frente do ide0, ok?)

Serão alguns minutos de cópia de arquivo, algumas reinicializações e mais alguns minutos de configuração. Tudo exatamente igual na instalação no Virtual Box, só que achei mais demorado. Acabando, copie todo o CD para uma pasta no HD (eu coloquei em C:\WIN98). Às vezes, durante a instalação de algum componente, um arquivo pode ser solicitado antes do acesso ao CD estar liberado; ter os arquivos gravados no HD é uma boa forma de “burlar” inconsistências como essa.

Após tudo instalado e copiado (vai dar, seguramente, quase uma hora de cópias, configurações automáticas e mais cópias), observamos alguns problemas.

Primeiro, a falta de som. Como já comentamos nos posts anteriores, o Proxmox só vai passar som através do SPICE (que eu NÃO vou instalar porque ninguém merece isso) ou através do Remote Desktop Protocol (que foi lançado no Windows NT 4.0 Terminal Server Edition e veio depois no Windows 2000 Server e, então, do XP (exceto o Home Edition) para frente). Assim, como já disse antes, essa é uma briga que eu não vou comprar.

Segundo, não temos rede (ao contrário do Virtual Box em que a rede foi automaticamente configurada).

Veja o PING: host unreachable.

Terceiro, temos o mouse ghosting, que discutimos no post sobre o Windows NT 4.0.

Quarto, temos que configurar o vídeo. Ele identificou uma placa Cirrus Logic, igual ao Windows NT 4.0 (e que não funcionava legal lá, lembram?).

E que, assim, como no Windows NT 4.0, “permitia” True Color 24 bit OU resolução maior (24 bit – 640×480; 16 bit – 800×600 ou 1024×768; 256 cores – 1280×1024).

Quinto, tem uma exclamação amarela no P&P BIOS.

Vamos começar. Vá em Control Panel -> Add New Hardware -> Next. Se o hardware estiver listado, vá nele. Se nao estiver, vamos procurar manualmente clicando em “No, I want to select the harware from a list” e procure por algo como PCI Bus, Plug and Play BIOS ou System Board. No meu caso estava listado o Plug & Play BIOS. É só mandar configurar. O Windows vai achar mais um monte de coisa ligado ao suportes PCI e ISA. Vá aceitando e instalando tudo (eu pedi pro Windows procurar automaticamente os drivers e ele foi encontrando tudo).

Rede sempre dá trabalho, principalmente por ter que achar um driver compatível. No Hardware Mode, no Proxmox, deixe o Realtek 8139 (rtl8139) e na VM, em Start -> Settings -> Control Panel -> Network -> Adapters, apague o que tiver sido instalado e instale o driver RTL8139 (baixe aqui).

Uma vez baixado o driver (um .ZIP de menos de 500KB), extraia ele e coloque eu uma pasta (dei o nome de RTL8139 e deixei em Downloads). Depois criei uma imagem .ISO com essa pasta com o comando:

hdiutil makehybrid -iso -joliet -o ~/Desktop/rtl8139.iso ~/Downloads/rtl8139

Isso cria um .ISO que, no meu caso, está na Mesa do Mac. Subi esse ISO pro Proxmox e abri no Windows para copiar para a pasta C:\RTL8139 e para usar o driver do adaptador de rede. Caso o Windows peça o caminho, use a pasta C: ou o CD, tanto faz. Se ele não encontrar, reinicie a VM que a plca vai ser encontrada. Só isso e ele vai instalar o adaptador “TRENDnet TE100-PCIWA/TE100-PCIWN 10/100Mbps PCI Fast Ethernet Card“.

Pingou! Rede resolvida! Para entrar no IE, é igual fizemos lá em cima: primeiro vá em Start -> Control Panel -> Internet Options -> Connections -> Setup e marque “I want to set up my Internet Connection manually, or I want to connect through a local area network (LAN)“. Dê um Next -> “I connect through a local area network (LAN)” -> Next -> Automatic discovery of proxy server (recommended) -> Next -> No (não vamos configurar contas de internet) -> Finish.

Agora é só escolher um site que ainda funcione com http apenas, tipo o http://info.cern.ch ou http://frogfind.de.

Agora que já temos rede, vamos arrumar a resolução do Windows. Vamos fazer do mesmo jeito que lá em cima, usar o VBEMP (VESA BIOS Extensions Mini-Port Driver),  um driver de vídeo universal para Windows 95/98/ME. Baixei ele no repositório oficial e atualizado deles (aqui) no GitHub. Em releases, baixe o driver para Windows 98 2D (vmdisp9x-1.2025.0.119b-driver-2d.zip). Após descompactar este arquivo, crie o iso dele. Para tal, extraí o .zip para a pasta vmdisp9x dentro de Downloads para facilitar a digitação.

No Terminal do Mac, vá até a pasta Downloads e dê o seguinte comando:

hdiutil makehybrid -o vmdisp9x.iso -iso -joliet -default-volume-name VBEMP vmdisp9x/

E é criado o arquivo  vmdisp9x.iso.

No Windows 98, vá em My Computer -> CD-ROM e copie o conteúdo da pasta para o HD (para C:\VMDISP9X). Clicando com botão direito em Start -> Settings -> Panel Control -> Display -> Settings -> Advanced -> Adapter -> Change… -> Next -> Display a list of all drivers -> Show all hardware -> Have Disk… -> Browse e vá até a a pasta C:\VMDISP9X (para onde copiamos os arquivos do VBEMP). O Windows encontrou o arquivo vmdisp9x.inf que é o driver que a gente precisa. Dê OK para continuar a instalação do driver. Agora o Windows mostra o VESA PCI Adapter. Selecione e siga as instruções. Se o Windows pedir algum arquivo e não conseguir achar na pasta C:\VMDISP9X, indique o CD que criamos  ou o CD do Windows para completar a instalação. Pronto!

Windows funcionando, internet funcionando, cores e resolução ok.

Temos alguns problemas sérios. O mouse ghosting persiste, apesar de trocar drivers, desinstalar e reinstalar suportes a mouse diferentes, etc. É uma limitação mais do noVNC do que do próprio Proxmox ou Windows 98. Como eu comentei quando instalamos o Windows NT 4.0,  lá foi possivel melhorar significativamente, mas aqui não resolveu nada.

Som também é uma limitação. O noVNC não passa som. O SPICE passa, mas eu já quebrei a cabeça e já desisti de instalá-lo há muito tempo.

O que dá pra fazer com o Windows 98 hoje? Pouca coisa. E em uma VM como o Proxmox, menos ainda… No Virtual Box ou VMWare ainda dá pra rodar algum programa leve ou jogo mais simples. Aqui no Proxmox, com o mouse ghosting louco, é virtualmente impossível fazer alguma coisa de útil. Ele talvez seja o que mais limita qualquer uso dessa VM, pois torna sofrível qualquer movimento ou clique que você queira fazer.

Conseguem perceber os dois ponteiros do mouse, né? O branco é do Windows (guest) e o preto é do Mac (host). É inviável usar isso.

Acho que a instalação está razoável. Caso você, leitor, consiga melhorar isso, deixe a dica nos comentários.

Agora é preparar para o próximo post: Windows 2000.

É isso por agora.

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